junho 14, 2004

Animação, ponto final

Somos animadores mas não somos simples palhaços. O circo das nossas vidas é o saber estar, respirar e vivenciar. É o dar a mão a quem precisa, e usar de todas as armas que temos para o potencializar.
Os nossos narizes são feitos de mil cores, de tatuagens pinceladas de várias essências. São a pintura de mil destinos, numa chama que não se apaga, por mais palavras infelizes e comentários jocosos que sejam cuspidos infantilmente.
Utopia ou palavras doces libertadas no amargo febril do Mundo? Pobre inocência juvenil por detrás de um curso ainda não finalizado? Muitas ideologias e filosofias que se poderão perder no calo de um dia a dia que não é assim tão límpido e nítido? Talvez.
Mas por mais punhaladas que sejam desferidas, por mais feridas abertas que sangrem num coração e numa alma sedentas de amor e de brilho, tudo o que me reveste não apodrecerá por intermédio de acção alguma. Porque mais importante do que estar e ser, é senti-lo como parte de nós, é identificar uma essência para nunca mais a esquecer e olvidar em tudo o que fazemos.

Publicado por Ray_Manzarek em 12:57 PM | Comentários (0)

A animação Socioeducativa

Quando os Animadores são palhaços, vistos perante os outros como tal, andam de um lado para o outro com narizes vermelhos e a fazer malabarismos, eles são uns tristes seres que têm que tirar um curso para fazer estas figuras. Mas muitos se esquecem que nós, ao fazermos o que fazermos, que ultrapassa muito essa imagem infantil que muitos adoptam, estamos a ser muito mais perante nós e perante os outros, e que o sabor de um respirar abraça o brilho e aroma de um momento. Se for preciso andar com um balão e pinturas na cara para fazer alguém feliz, para o fazer sentir presente e vivo, andamos com muito orgulho. Porque mais importante do que fazer algo, é fazê-lo com orgulho, com trabalho e esforço. Com pertinência e um sentir estimulante.

Publicado por Ray_Manzarek em 12:54 PM | Comentários (1)

O medo, ponto final

O medo. Medo que não merece a nossa atenção, o nosso ardor, a nossa carícia. O medo que apenas existe quando pensamos nele, e quando nele depositamos a nossa existência. Medo de ter medo, medo de ter medo quando temos medo. E por aí andando, demonstrando a nossa profunda e por vezes angustiante vocação humana. O de não enfrentar os problemas, os caminhos, o destino. De nos preocuparmos com simples metáforas da desistência humana, quando somos capazes de muito mais, se até aqui chegamos. Deixaremos o medo corromper a nossa acção, o nosso amor e vontade, quando o coração nos fala na intensidade de um sentir e de uma vivência? Saberemos realmente identificar o fio condutor do medo, como existência e realidade inequívoca? Por vezes o medo para nós reveste-se de várias maneiras e alternativas. É sinónimo de necessidade de desistência, de apatia, de desilusão, de falta de auto – confiança. Mas nunca deverá ser sinal de uma perda perante nós próprios, de um abandono da nossa alma e dos nossos estímulos enquanto seres pensantes, enquanto entidades que podemos marcar a diferença e conduzir as nossas vidas para novos e mais límpidos patamares existenciais. Agarrar o medo, aprender com ele, estudar o motivo para uma presença, consiste principal caminho para o ultrapassar e passar a conviver com ele, não como uma dificuldade impossível de ultrapassar, mas como algo que nos orienta e nos ajuda a encontrarmos toda a força que nos reveste.


In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em 12:51 PM | Comentários (0)

Dois tatuares sobre o Medo

O medo. Medo de não conseguirmos ser nós próprios na necessidade de uma elevação de forças e vontade. Medo de não possuirmos a força e o dom de nos excedermos nos nossos desejos e objectivos. Receio de desistirmos quando ainda tudo começou, esperando por mais uma arrancada entoada por nós a plenos pulmões. Medo de não sermos nem termos estofo de combatentes, de no terreno mostrarmos toda a nossa fibra doente e febril. O medo. Medo de não conseguir abraçar nem ajudar as pessoas. Pessoas como nós, humanas, presentes, vivendo, respirando, sobrevivendo. Medo de sermos a matéria que nos reveste, ansiosa por acção e por uma justificação para existir. Medo de sermos quem um dia decidirmos ser, demonstrando a nós mesmos a nossa vontade e o nosso amor na concretização desse objectivo. E por falar em amor, medo de não amarmos o que somos ou não somos capazes de dar e alcançar.


In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em 12:49 PM | Comentários (0)

Um tatuar sobre o medo...

O medo. Medo da incerteza, fugaz desconhecimento de algo que se afigura distante, esperando a concretização de uma iminência do destino. Medo de nós próprios, receio de experienciar uma desistência opressora e vil. O medo de morrermos no campo de batalha, incapazes de erguer as nossas defesas naturais e armas existenciais em prol de uma luta que passa pela preservação dos nossos sonhos e respirares sedentos de glória. A inconstância de uma prece, o soltar selvático de um grito nos claustros mirabolantes da memória. O medo de nos perdermos na infinidade de mil caminhos, alheios a todos os ensinamentos pretéritos que nos sibilam a memória. A desgraça de podermos mergulhar no rio do esquecimento, bebendo de suas águas enfeitiçadas a triste e decadente poção do apodrecimento físico e espiritual.

Publicado por Ray_Manzarek em 12:48 PM | Comentários (0)

Oh, melodia...

Quando verificamos a nossa perda perante nós próprios, engolidos numa solidão introspectiva que mal nos deixa respirar, engolindo o nosso suspiro e o timbre de voz, por vezes mergulhamos no abraço terno e suave da música. Ela tem esse misticismo, essa força inenarrável que espevita, faz renascer esperanças e sonhos. Possui nos seus mantos mensagens, tatuagens de artistas e músicos, que concebem peças de artes, manuscritos sinceros do seu sentir e estar perante o mundo, uma mensagem que desejam ser partilhada e descoberta. Sem sombras lívidas de dados erróneos ou falsidade. Apenas partilhando algo em que acreditam, parte da filosofia que lhes banha o ser, envolta em mantos de acordes e pautas musicais, rasgando o silêncio e a apatia, incentivando a um processo de descoberta e comunicação introspectiva, mas também exterior, para o mundo e perante o mundo.
A música é uma dádiva, suspiro do mundo e entoação suave da Natureza e dos seus mantos. Um vício apaixonante e quente, como os dias febris do Verão, acariciando o nosso respirar e incentivando-nos a viver ainda mais. A música será sempre o canto de um Mundo, a representação que tanto temos para dar e transmitir, libertar e comunicar. A representação de faculdades, conhecimentos, aprendizagem e sabedoria. A música é um processo introspectivo de conhecimento, desenvolvimento da individualidade, desbravar e acariciar de alma e essência. Uma carta aberta, envolta em sais líricos extasiantes, para todos os que se dispõem a ouvi-la, a percebê-la, a dar-lhe atenção.


In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em 12:45 PM | Comentários (0)

Esquecimento

O simples facto de criar algo, a partir da sua criatividade e capacidade individual, desafiava a alma a libertar-se das amarras meramente teóricas, ao mesmo tempo que o impulsionava a agarrar sonhos, lutando por eles, acreditando na sua existência como realidade a ser concretizada. O Homem define-se pela sua capacidade e integridade para sonhar. Como negar a afirmação de tão saudoso poeta, que o sonho comanda a vida, quando ele é basicamente o néctar que adocica um respirar e uma percepção metafísica perante nós próprios? Como negar a evidência de um destino, que nos enumera os vários caminhos a seguir e seleccionar, pelos quais deveremos lutar com a nossa integridade, abraçando as nossas qualidades e características? Deveremos criar esse destino, ignorando a doce fragrância de um sonho que transfigura o real, recriando-o e fornecendo-lhe novos patamares e asas brilhantes? Não partilhava dessa opinião, e as suas motivações eram mais que suficientes para lutar pela concretização de um projecto, de uma actividade que para ele desempenhava um papel primordial no seu desenvolvimento e crescimento, como Homem, ser humano físico e espiritual.
As pessoas esquecem-se quem um dia foram, quem um dia desejaram ser. As pessoas olvidam o facto de que dentro delas possuem eternamente o que as definiu como sendo elas para elas próprias. Nós somos sempre algo de bom para nós, por mais defeitos que possamos ser. E principalmente, as pessoas deixam escapar a sua divindade, em prol de vivências burguesas e meramente técnicas, sem uma chama de verdadeiro incenso ardendo fogosamente em seus corações. Sobrevivem a uma realidade que poderia ser tecida da sua vida. Sobrevivem quando poderiam recriar a sua própria vivência, lutando pelo que são e pelo que querem ser. Sobrevivem tendo conhecimento do seu prazo de validade, e nada fazem para o renovar, ou renascer da penumbra a figura física do seu espelho, e a sua figura espiritual da sua alma.
Pedro já se sentira miseramente só, abandonado na escuridão de caminhos e fragrâncias tortuosas. Já tivera caído e sofrido nas inconstâncias do tempo e da vontade. Já tivera perecido na desistência de um combate e batalha, mergulhado na tristeza decadente de ver as suas mãos crispadas de sangue no aroma putrefacto do campo de batalha. Agora chegara a altura de dizer “basta!”, embarcar numa jornada onde já tivera comprado bilhete, lutar pelo que era e pelos seus sonhos, demonstrar ao Mundo que ocupava um lugar, não em vão, mas para enunciar a plenos pulmões o seu poema existencial, a sua vivência, o perfume que julgava e acreditava ter dentro de si.
Nem tudo eram palavras bonitas, nem tudo eram representações lindíssimas de força, vontade e vigor. Tinha profunda consciência do risco que corria, da possibilidade de que algo que defendia poder representar um profundo falhanço. Mas isso não o atemorizava. Dava-lhe alento, coragem, espírito de combate. Nada nasce sem trabalho, amor e dedicação. Nada nasce sem ser fecundado de um embrião, de uma mãe alma e essência que nos cria, acredita em nós e nos ama como seu filho. O seu projecto era o seu filho, e a sua espada de batalha, a sua alma e sua crença em si próprio.


In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em 12:42 PM | Comentários (0)

Edições em Dvd - O que está para vir..

Primeiro que tudo, a edição especial dos dois filmes do fantástico desvario oriental e filosófico de Quentin Tarantino, Kill Bill. Pese embora o facto do primeiro filme já ter saído em dvd, e o segundo estar a poucos meses de ser editado, a versão definitiva e éxtensiva será efectivamente a que adicionará os dois filmes, numa roupagem inundada de extras. E este é um dos pormenores que mais condicionam, hoje em dia, a aquisição e venda de dvd´s. A edição já lançada de Kill Bill, Volume 1, é muito pobre em conteúdos adicionais, na medida em que a distribuidora prepara uma edição especial para ser lançada posteriormente. Comecemos então a poupá-lo, porque de certeza que o preço não irá ser lá muito meigo, infelizmente.
Imagino também, o que vai acontecer, quando a Paixão de Cristo, filme de Mel Gibson, for editado em dvd. Com a febre extasiante que se instalou um pouco por todo o mundo aquando da sua estreia no cinema, nada se pode antecipar, com profunda certeza, em relação à sua edição em dvd. Apenas, talvez, que irá ter novamente um êxito estrondoso. Aguardo também com alguma curiosidade este lançamento.

Publicado por Ray_Manzarek em 12:32 PM | Comentários (0)

Dvd´s - O Último Samurai

Era algo indispensável. Corrompia-me a necessidade de adquirir este dvd, como algo que nos incomoda lentamente a cada tímido respirar, não amolecendo ou desaparecendo. Se dependesse da minha vontade, já o tinha há muito tempo, no entanto o dinheiro é algo que não abunda.
Em relação ao filme propriamente dito, já muito escrevi por aqui sobre ele, e por isso irei incidir a minha análise sobretudo nos conteúdos e na roupagem gráfica do dvd em questão. Primeiramente, é de referir o cuidado por parte da distribuidora em legendar em português todos os extras presentes no segundo dvd, já que a edição consta de 2 dvd´s. No entanto, em algumas situações as traduções não são as mais correctas, verificando-se por vezes incorrecções linguísticas e de sintaxe. É também notório alguma tradução feita à letra, o que pode prejudicar quem vê o conteúdo adicional.
No entanto, tenho que referir o belíssimo estilo estético dos menus dos dois dvd´s, enquadrando-se em profunda sintonia e harmonia com a poética lírica e existencial do filme, ao mesmo tempo que nos apresenta trechos de imagens e de som da mesma obra. Neste ponto específico, os dvd´s encontram-se irreprensíveis, com uma qualidade estética e gráfica espectacular.
Incidindo directamente no dvd de bónus, as opções apresentadas são vastas e, em alguns casos, um complemento rico e pertinente do filme. Falo sobretudo da conversa entre o realizador e Tom Cruise, o documentário do canal História acerca do filme e a sua comparação com a realidade histórica. Além disso existem também os habituais trailer e making of, este visto directamente sobre os olhos do realizador, através de um pequeno documentário que nos mostra também pequenas featurettes. Além disso, o segundo dvd contém também a estreia do filme no japão, documentários sobre as armas, sobre Tom Cruise e a preparação do mesmo para o papel, cenas cortadas, etc. Pese embora o facto de alguns pequenos documentários possuirem poucos momentos de interesse para um visionamento atento e dedicado, a maioria deles revela e ostenta pertinência e confere uma riqueza adicional ao conteúdo do filme, à sua tatuagem estética, filosófica e lírica.
Em relação ao filme, dvd 1, a imagem está muito bem conseguida, com uma boa paleta de cores e um som irreprensível. Para quem gosta do filme por si só, a aquisição deste dvd é quase como uma obrigação. Os que gostam principalmente de explorar os conteúdos adicionais das edições em dvd, terão também aqui material que sobre para um visionamento muito satisfatório.

A minha nota final será 4.4 , numa escala de 1 a 5

Publicado por Ray_Manzarek em 12:25 PM | Comentários (0)

junho 11, 2004

A nossa história...

A melodia era triste, invocando um sofrimento doloroso, de um ritmo extasiante, que enlameava a alma e a fazia cair num oceano de vagas sensações, como que perdida num vasto lago de lágrimas pedindo o sussurrar de uma vontade perdida. Mas como força desconhecida, a mesma melodia embarcava num novo tom, sendo luz e esperança, rasgando com o passado e criando uma nova realidade, gritante necessidade de uma libertação completa dos sentidos e da alma. Era nova fragrância, queixume passado, desespero rasgado de perfume de vida que agora abraçava a audição. Tal como um trabalho, que por vezes parece completamente distante de nós próprios, depois de alguns fracassos vividos com sofrimento. Um trabalho que parece apodrecido, juntamente com a vontade que nos abandona lentamente, mergulhando-nos num vale depressivo de auto mutilação argumentativa, criação opaca e viscosa, como um fungo que ameaça devastar todo um esforço e caminho já traçados. Com o passar do tempo, sendo abraçados pela presença eterna daqueles que acreditam em nós e estão presentes na chama partilhada de uma invocação, continuamos a acreditar, não da mesma maneira, mas recusamos uma desistência no eloquente campo de batalha. E com as armas erguidas, perante as adversidades, relativas ou não, criamos a nossa própria história, juntamente com aqueles que acreditam no mesmo que nós, com aqueles que são parte de um desejo conjunto.

Publicado por Ray_Manzarek em 04:15 PM | Comentários (3)

Evidência?

Existem momentos na vida em que nos sentimos sozinhos. Em que tudo o que fazemos parece distante ao resto dos mortais. E a incompreensão vigora no espaço, é soberba e apática aparição. Tudo o que fazemos está condenado à tristeza de uma evidência que nos diz que a nossa palavra se perde no vazio de um caminho que não existe, porque mais ninguém o conhece ou ousa desmistificar o seu sentido. Mais triste se torna, quando ninguém o quer verdadeiramente conhecer, ou assim pensamos no interior da nossa mente. Quando tudo isto se esfuma, perante um horizonte tatuado de vozes inundadas de motivação e espírito combativo, e se cria uma melodia partilhada do coração e da vontade de todos, a nossa mente liberta-se e o corpo agradece a dádiva de se poder transfigurar num espaço e odor novo.

In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em 04:11 PM | Comentários (1)

junho 10, 2004

O início e o fim

Hoje, pode ser o começo de tudo. De uma história, de um desenvolvimento de uma personagem, aquela que nos veste e emancipa. Pode até ser o começo de uma nova jornada, rasgando o corpo e a alma, alimentando-a de sonhos e memórias. Mas pode também ser o acorde sentido que desmistifica o significado da palavra “fim”, para lhe conceder um novo início, e roubar-lhe a plena convicção de existir como o interregno de alguma coisa. Para um fim existe sempre um início. São como irmãos, inseparáveis realidades circunscritas a uma existência paralela. A realidade alimenta-se de uma constante migração de necessidades e invocações, que juntas evidenciam a urgente clemência de um novo rumo, de um novo começo, de um novo final. Um final para alimentar a esperança de um sentimento renascido, para saciar a dor de uma solidão que por vezes inunda o ser. Quando estamos sozinhos perante nós próprios, nem uma imensidão de pessoas, de amigos, nos parece valer na triste evidência de uma atmosfera mórbida e crua. Olhamos para nós próprios e reconhecemos o suor dos nossos erros, a melancolia inerente a um novo respirar corpóreo. O mundo parece-nos diferente, nem sequer o azul gravado nas abas do céu nos consegue absorver na sua beleza. Tudo é distante, opaco, baço na sua miscelânea de sentires e aromas. Nasce do nada e para o nada se encaminha, como triste dissidência alimentando o discorrer de um leve rio, caminhando as suas águas para outros rumos e existências, não pactuantes com a nossa inconstância tenebrante interior.


In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em 09:51 PM | Comentários (2)

Utopia?

Por vezes as pessoas esquecem-se de que, mais que olhar para o seu umbigo e enamorarem-se por elas próprias, por feitos já alcançados ou uma pretensa beleza física, estão aqui e conseguem viver, porque existem seres que os amam, que os defendem e colocam no topo de suas vidas. Ninguém consegue viver para si mesmo, cultivando somente a sua individualidade. Ninguém pode sonhar sem amor, ou pode amar sem sonhar. Viver é partilhar com os outros uma realidade, um dom, uma possibilidade. A de viver e lutar por algo que é nosso, mas que terá outro brilho, outra cor, se for partilhado com as pessoas que temos a nosso lado.

Publicado por Ray_Manzarek em 09:49 PM | Comentários (1)

Homens bons e Homens maus

Falar de violação, no cru e nu sentido da palavra, implica desmistificar a natureza mais bárbara e hedionda do Homem. O acto de violentar uma outra pessoa, independentemente do seu sexo, ainda mais quando esse acto se torna físico e sexual, representa uma das atitudes mais vis e desprezíveis que o ser humano consegue exercer. Pedro relembrava filmes que o tinham marcado, onde essa particularidade negra do ser humano era abordada de forma directa e incisiva, e registava dentro da sua individualidade a profunda repulsa e raiva que tivera sentido quando os tinha visto. Atentar contra a liberdade e a natureza física e psíquica de uma pessoa, é somente retirar-lhe o direito a ser ela própria e a tomar e meditar sobre as suas escolhas. Quando por exemplo, um homem violenta uma mulher, ele não só está a demonstrar a sua mediocridade e barbaridade, como também enuncia a sua impotência perante os valores da compreensão, da liberdade e do amor. Quem desempenha determinado acto, muitas vezes mais do que uma vez, possuí em si, não só muitos complexos e traumas vivenciais, como também abraça dentro da sua personalidade e individualidade o gosto em ser mau. Era esta a opinião de Pedro, depois de visionar o pequeno documentário sobre o conflito e guerra na Bósnia, que levou a um desumano desmembrar e genocídio de povos e culturas, a par de um completo atentado à liberdade e direitos humanos individuais. Abordando a especificidade do documentário, ele apresentava relatos de mulheres vítimas de atentados graves à sua integridade física, sexual e psicológica, prisioneiras de guerra de um movimento hediondo e desumano, alicerçado em figuras e intelectos minados pelo descontrolo, pela arrogância e pseudo mentalidade superiora. Pedro sentira raiva e desprezo, descontrolo e tristeza. Porque as palavras sibilando na sala, ecoando por entre mentalidades e pessoas diferentes, permaneciam quentes e febris, como testemunhas de uma realidade que nunca se irá apagar, por mais sopros de tempo que rasguem a existência e o fluir histórico do Mundo. Sentira dor ao ver o sofrimento na cara daquelas mulheres, sobreviventes de um holocausto que destapara a natureza por vezes assustadora do Homem, quando envereda por caminhos que visam sobretudo demarcar a sua superioridade, assim como da sua raça, em relação e punindo as demais. Quando toma esse caminho, torna-se um animal na verdadeira acepção da palavra, porque age segundo instintos, renunciando à razão que permanece no seu intelecto, e que posteriormente tenta anular. Para Pedro a situação apresentada assentava em dois pilares fulcrais e em interacção. Primeiro, parecia para ele inegável, o gosto e a motivação de tais homens a desempenhar situações e acções tão cruas, bárbaras e desprezíveis. Se não o sentissem, jamais as conseguiriam fazer, porque o ser humano, em situações normais ( quando não é obrigado, quando se encontra bem psicológica e fisicamente ), se é bom jamais conseguirá fazer mal a outro, por mais que as suas ideologias, maneira de pensar e cultura se dissemelhe a do outro. Ao contrário do que muitas pessoas lhe afirmavam, Pedro acreditava no Homem, não como um ser bom por natureza, mas como um ser neutro por natureza. Queria isto dizer que, apesar da educação contribuir muito para a conveniência e orientação de um ser para determinado caminho, ele nunca deverá ser a única justificação para colmatar um comportamento sociológico desviante. Pedro enervava-se por vezes com a visão de seres predominantemente bons, tomando rédeas vis na sua vida directamente e apenas resultado de traumas psicológicos e da sua educação. Para ele nada era mais incoerente, porque embora esses factores sejam por vezes a justificação, eles não poderão abarcar toda a multiplicidade de indivíduos e acções que caracterizam esses movimentos desviantes. A resposta encontra-se no foro particular do indivíduo, na sua aptidão natural para determinado caminho escolhido. Se optar pelo bem, o mal será visto como algo cruel, desumano e factor resultante da dor e do sofrimento. Será portanto uma realidade com a qual o homem terá dificuldade em lidar, quando fizer sofrer alguém sem o querer. O mal regista a tendência natural do indivíduo para agir segundo os parâmetros que acha satisfazer as suas necessidades, que passam efectivamente por fazer sofrer e alimentar-se da dor dos outros. Esta realidade era para Pedro, evidente. Acreditava na existência de seres que predominantemente, são maus numa comparação global. Podem e deverão ter a capacidade de amar, no entanto as suas capacidades serão sempre importunadas e desmembradas pela sua sede de dor e sofrimento. Por vezes eles próprios alimentam-se de um sofrimento intrínseco, alimentando a sua necessidade.
Quando olhava para a realidade, a qual já conhecia, mas agora novamente gritante e voluptuosa na tela, eram estes os pensamentos que invadiam o seu ser e discernimento. Não encontrava outra maneira para justificar os profundos e hediondos atentados a uma infinidade de mulheres, violadas na sua honra, vida e amor, retiradas dos seus filhos, de suas casas e maridos, unicamente para passar a viver uma existência de dor, violação e sofrimento. Ceifar uma individualidade, esquartejá-la num ápice, enquanto se satisfaz um desejo meramente irracional, animal, completamente desprezível, é algo que os Homens não têm direito, legitimidade, nem deveriam ter poder para o fazer.
Como justificar estes actos? A defesa de um pretenso país e nacionalidade? De uma raça e pureza superiores? Uma merda! Existem pessoas que vivem unicamente com esse “dom”, estendendo-o até onde podem e conseguem. O “dom” de fazer sofrer e de se alimentar desse sofrimento com um sorriso nos lábios, porque se sentem bem a fazê-lo.
E quantas pessoas neste mundo já sentiram na pele tal acto hediondo, desprezível, desumano e irracional? Quantas delas viram desmoronar o seu mundo, nos minutos da violação, raptadas por um ser que as violenta sem qualquer tipo de conflito interior, minado apenas por uma satisfação rápida dos seus impulsos de animal, cujo poder lhe tolhe os movimentos, a percepção, a inteligência e sensibilidade que deveria possuir. Quantas mulheres choram de profunda dor, vendo os seus corpos e a sua alma devassadas, por vezes por completos estranhos, por vezes por pessoas que pensavam conhecer tão bem, e não sabem o que fazer ou o que pensar. Inundam-se em sofrimento e dor, por uma perda perante elas próprias, por um acontecimento que nunca se poderá apagar das suas recordações e da sua vivência.
Para Pedro esta realidade era tão verídica como o facto de a bondade nunca poder ser totalitária num indivíduo, assim como a maldade. Todos nós já fizemos mal ou bem, uma ou outra vez, por querer ou sem querer. Esta evidência faz parte do percurso do ser humano.
Pedro caminhava envolto na melancolia e na meditação introspectiva. A violação de uma mulher abominava-o, inundava os seus pensamentos de desprezo e raiva. Compreender o ser humano é tão complexo como viver o momento, com calma e contemplação.

Publicado por Ray_Manzarek em 09:44 PM | Comentários (0)

O amor

A vida desenha-se da vontade de um corpo, da sua tremenda convulsão extasiante que adocica uma alma, a faz lutar e desejar um mesmo percurso e caminho. O amor, mais que um sentimento ou uma realidade que impera no mundo, por vezes transcende os seus próprios limites e densidade existencial. Quando a alma e o corpo desenham um quadro eterno de divindade, onde as cores brilham incessantes bebendo do amor o seu verdadeiro significado e poder, a vida abre-se em toda a sua pureza e felicidade.
Mais que palavras tatuadas no seio de um Mundo, no ventre da Natureza que acolhe o amor como seu filho mais pródigo e perfeito, esse mesmo amor liberta-se da simples concepção de um sentir ou de uma palavra. Ele é representação de vida, a maior prova de um corpo e de uma alma numa simbiose eterna de paixão e desejo eterno febril.
Quando acordamos e derramamos lágrimas de felicidade, porque quem tanto amamos continua perto de nós e é eternamente razão do nosso respirar, podemos dizer que realmente amamos, e mais que uma palavra libertada no calor de um momento, trata-se de algo que nos ilumina toda a essência e alma, algo que é tudo o que somos e sempre iremos ser.
Quando o brilho ilumina os nossos olhos, o coração rejubila de paixão e loucura, ao saborear uma fotografia, um momento, a sua voz, o seu tom, paladar e aroma. É amor, mas não aquele amor que todos libertamos por palavras, quase instantâneas. Não, esse amor está dentro de nós, não necessita de ser invocado a todo o momento, porque tudo o que somos o devemos a ele, tudo o que temos o alcançamos para ele, e mais importante que tudo, sentimos a vida no nosso paladar diário, o tacto existencial de um sorriso, a fragrância de um passeio, o libertar de corpos e espíritos.

Publicado por Ray_Manzarek em 09:38 PM | Comentários (1)

A viagem

A viagem perdida de uma alma rumo ao infinito. A algo que não é palpável, mas que sente existir por trás das penumbras da memória. O doce envolver de um corpo na atmosfera gelada de sentimentos, condensados num sofrimento que estala vazio, perante as estátuas inertes do pensamento. Quando as asas que temos se partem, perante um pranto de lágrimas, o coração desespera num canto adormecido. O campo de batalha que se avistava, robusto e espesso, de armas dispostas no chão, era desejado por nós porque acreditavamos na nossa força, nos desejos sussurrando a um ouvido e a uma essência intemporais.
Jornada que se despe de cor, ao mesmo tempo que o repasto outrora brilhante, inundado de sorrisos que coloriam o espaço, retrata a dor de não reconhecer uma atmosfera. Aquilo que nos veste agora, é somente manto de novas paragens, uma situação que ultrapassa a alma doente, carente de uma atenção de si própria.
E com a cara enlameada, um corpo dorido e completamente abandonado, olhamos para o espaço, tendo orgulho por nós próprios. Abraçamos a honra que sempre nos deve inundar o coração e a essência e delicadamente, começamos a escrever o nosso novo futuro. Com dedicação, afinco e amor.
Amor, esse nobre sentir, rei de seres e de almas, rainha de invocações e de memórias, cadeado do nosso coração e da nossa alma. Quando desperto e completamente viciado na loucura, faz-nos percorrer milhas incessantes de liberdade e felicidade. Quando espevitando todas as profundezas do nosso ser, faz-nos sentir capazes de engolir o mundo e o espaço. E somos oásis sem fim, divindade perdida nos claustros do mundo. Somos filhos de todas as estrelas, toda a cor e brilho que habita nos limiares cerrados do mundo. Somos alguém, somos tudo, num nada que com maior impacto nos envolve em todo o nosso discorrer existencial.
Quando despidos sem perdão, retirados da tatuagem que pensavamos infinita, estamos tristemente sozinhos. E a viagem acabou, o bilhete caducou, assim como uma vida que já não tem o mesmo sabor, a profunda divindade com que banhava o nosso acordar. Esse acordar agora é envolto no vazio, de uma escuridão mórbida que tolha os nossos olhos de lágrimas de raiva e de uma ilusão que se desvaneceu perante o cântico da cidade adormecida.
As pessoas que caminham lá fora, as suas faces parecendo esconder tanta tristeza permanecida num coração esquecido, são agora representações fieis de nós próprios. E tomamos outras medidas, a nossa atenção é agora redobrada. Identificamo-nos, somos novamente Homens e Mulheres. Numa solidão partilhada, com tantos outros seres que, diariamente, caminham.. e caminham, e caminham...
Mas neste campo de batalha de mil armas e destinos, regado a diferentes intensidades existenciais, a chuva que nos molha a face e o corpo, poderá ter o sabor da nossa essência, da força e da honra que sentimos pulsar na alma que nos reveste. A flauta que pincela os céus com a sua melodia refrescante, é somente uma das armas que possuimos para, com dignidade, retirarmos um corpo do chão e movermo-nos. Sem medo. Para uma viagem que nunca poderá acabar. Para uma viagem que só terá um fim quando a nossa voz se calar.
E ele levantou-se...depois de sofrer em silêncio e derramado em lágrimas. Levantou-se e percorreu o espaço. Ouvindo um coração, um respirar.

Publicado por Ray_Manzarek em 09:34 PM | Comentários (0)

Hans Zimmer

Depois de mais uma vez ouvir deliciado, a banda sonora do Último Samurai, apeteceu-me partilhar com todos, algo que me reveste o pensamento. Sem dúvida alguma, para mim, Hans Zimmer é no panorama moderno cinematográfico americano, um compositor que constantemente se reinventa e dota os filmes em que participa, de uma atmosfera envolvente e profundamente sedutora. Não só o consegue fazer, como também abraça todo o filme numa unidade melódica que consegue fazer sonhar e transpor a individidualidade e sentir de quem vê, para o plano de batalha, para o desflorar de imagens, de sentidos, de vivências.
A banda sonora do Último Samurai, em mim produz um sentimento de profunda tristeza e melancolia, sem no entanto agarrar-me por vezes num profundo rasgar de força e de pulsar heróico. Essa heroicidade que reconhecemos no campo de batalha, na força de condutas e pensamentos de vida retratados no filme. Mais importante que tudo, ao ouvir a banda sonora isolada do filme, todos esses sentimentos abraçam uma essência e espevitam-na, recriando uma pintura mental condensada de uma tatuagem de grandes príncipios e qualidades humanas. Como representar através de caracteres e de linhas de texto, uma fusão melódica irreprensível da filosofia e do calor do combate, a adição de orquestrações orientais com traços sedutores da natureza. É poesia, cor e sabor adicionados perante a nossa audição atenta, com uma ténue lágrima nos nossos olhos, aqueles que verdadeiramente se sentem tocados por música vinda da alma, incessante e única.
Mas não só no Último Samurai aparece Hans Zimmer. Ele aparece também no Gladiador, no Cercados, e em outros filmes, sempre com um inegável talento, carisma de autor e uma reinvenção dum contexto musical. Estas duas últimas sonoras, são também, uma representação inequívoca do seu talento, da força e brilho das suas composições, que sem qualquer esforço resistem a uma audição fora do seu filme de origem.
Quando a música abraça o espaço, se funde com ele e passa a fazer parte do nosso respirar diário, como uma banda sonora intimista do nosso coração, do pulsar do corpo e da alma, esse factor nunca poderá ser inocente ou casual. É algo que muito raramente acontece, e quando acontece, é uma forma de arte, uma obra intemporal, um sibilar atento às nossas raízes, ao pincelar de um percurso e de uma vida. Essa música é vida, é cor, é o paladar escondido na bruma de mil destinos perante as nossas visões.

Publicado por Ray_Manzarek em 09:13 PM | Comentários (0)