Frequências e trabalhos pincelavam o momento, ao mesmo tempo que se empoleiravam na eminência da concretização de um estágio. A pintura borratava-se de tons negros e carregados, quando o tempo e o espaço ditavam as suas leis, apresentando a cruel realidade de uma jornada insaciável de energia, nociva a qualquer tipo de descanso, por mais mínimo que fosse.
Enquanto o comboio suspirava sob os contornos de uma linha, traçando um caminho e destino físico, os seus olhos miravam a imensidão de um palco natural, polvilhado por inúmeros actores inanimados, pactuando o seu espaço com o polvilhar de sonhos e movimentos humanos. Olhava para isto tudo como simples espectador, olhando para o seu tiquet de vida, prestes a expirar de validade e a precisar de uma renovação. Como um qualquer animal que necessita de nova pele ou escama para recuperar forças e reavivar memórias e energias, Pedro sentia-se perdido na eminência de realidades que lhe minavam o discernimento e o recolhiam na completa apatia e pânico de não saber o que fazer, perante um caleidoscópio tão cerrado de cores, que se formatavam como caracteres, despindo-se perante ele, alheios ao facto da sua falta de tempo.
In Diário de Bordo
Estava cansado. Não só de planificações, teorias, ou necessidades educativas e práticas. Essencialmente estava cansado perante a dura realidade que por vezes despe a sua verdadeira face, demonstrando a natureza que a molda e a faz ser isso mesmo, realidade. Estava cansado de olhar para dentro de si próprio, reconhecer sonhos, ideias e aspirações grandiosas, mas prostrar-se depois perante a evidência da dita realidade. Eram tudo doces ilusões, as palavras proferidas no auge dos sonhos que nos vestem e dão cor. Agora via que não tinha possibilidade de fazer o estágio que sempre sonhara. Não com a sua completa entrega, dedicação e empenhamento. Não porque não o quisesse, mas porque não tinha qualquer possibilidade de o fazer. Os dois trabalhos de grupo para entregar logo depois, as duas frequências perto para as quais era preciso estudar, o chumbo de uma cadeira, a outra em atraso, não o deixavam entregar-se. Por mais que sentisse que isso era indispensável para o sucesso do seu projecto, para a sensação de preenchimento existencial, as preocupações inerentes ao curso ecoavam sempre na sua memória. Roubavam-lhe o sono, como as hipotéticas injustiças, que para ele eram realidade crua e dura. E como isso doía, como lhe magoava o respirar e trucidava a pertinência e atenção perante o pulsar e crescimento do seu próprio projecto.
Diário de Bordo
Às vezes um homem sente que é empurrado para o fundo, quando realmente necessitava de um libertar de amarras, de se divertir com o seu processo e com a capacidade que afinal possui, de se reinventar. Pedro empurrava-se a si próprio, incapaz de aceitar a evidência e a realidade de uma vivência. Que saudades que tinha de estar num local, com calma, a pensar em algo, pelo simples prazer de pensar! Que loucura febril, aquela que lhe desmistificava caminhos já por ele percorridos, mas que agora pareciam tão distantes, tão baços. Pedro não reconhecia qualquer utilidade em certos aspectos do seu curso, como a existência de algumas cadeiras, que instalavam a monotonia e o processamento automático de dados nas mentes mais liberais. Todos os chavões, toda a teoria fundida em prática e em vivências de e para a comunidade defendida pela Animação Socioeducativa, eram completamente cilindradas dentro do próprio curso, por disciplinas que se pretendiam exemplos e verdadeiras demonstrações da teoria aliada à prática de Animação.