O ser caminha em silêncio
Tormento de existência...
Crivar de lâminas aguçadas
Num coração gasto e doente...
Escravo de um amor afrodisíaco
Percorre com as mãos gastas do sofrimento
Cada recanto esquecido do seu passado
No álbum poeirento de fotografias...
Captar de sorrisos que agora destoam...
Na melancolia agreste do dia chuvoso
Inundado por um céu opressor
Pintado de tons cinza... chama gasta...
Gotas frias acariciam os seus óculos
Pavimento irregular, buracos de alma
Sofrimento constante, tímido libertar de dor...
Apetece chorar, vergonha súbita de o fazer...
Constante sentimento de frustração..
Raiva gigantesca, manchada de invalidez
De algo querer fazer e nada poder...
Segura carinhosamente o ramo perfumado
De um vermelho carnudo...
Entra lentamente...
No repouso pacífico da morte muda...
Caminha de campa em campa...
Ajoelha-se, sente o coração derramar
A tristeza que o inunda e o destrói...
Beija a fotografia...
Mas sabe...
Que dentro de si..
A fotografia tem alma...
Um rosto e uma eternidade
Brilham no céu
Olhos estrelares de nuvens porcelânicas
Que testemunhas da melancolia humana
Libertam em luto
Doces e singelas lágrimas sentidas
Que tocam no chão oco e adormecido...
Do pensamento humanamente vão...
E só encontram
O esquecimento
De quem é
O que não quer ser...
E se torna
O que não é.
Na habitação envelhecida
Apodrecem lado a lado
Sementes envenenadas e esquecidas
De dor ... e mágoa..
Ninguém as colhe , as alimenta
No final apenas reside...
A tristeza , a saudade...
Som de almas , ecoar de sentidos
Claustro melancólico de lágrimas
Paira no ar o aroma mórbido
Atmosfera gélida e disforme...
Deixaste-te penetrar pela Morte.
Um corpo percorre as masmorras
Deixa-se alimentar do sofrimento
Sacrifica-se pelo seu sonho
Pela sua alma e devir.
Ergue nas suas mãos doridas
O fruto esquecido da divindade
O perdão , a força de vontade
Jorram incessantes no seu espirito.
Traz consigo as sementes ...
A certeza de um passado
Que não esquecerá.
Leva-me para o fim da tua vida
O encerrar corpóreo de uma busca incessante
De glórias mundanas..
E de um orgulho inconsequente.
Ensina-me a morrer com dignidade
Treinemos a nobre arte de morrer...
Sem vivermos até ao limiar do nosso espírito..
Limpemos as arestas da vida...
Que viciosamente se apegam
A corpos enlameados de dor e sofrimento.
Cantemos a doce melodia da desistência
Sóbrio engano docemente cruel...
Que rouba uma alma calejada
E a transporta rapidamente...
Para o limiar mirágico do sonho
Sonhemos sem sonhar...
Morreremos sonhando...
Em viver
O doce sonho.
Da morte.
Sentinelas hirtas libertam a sua ira
Postadas no chão , crianças jorram sangue
Momento apático , aponta-se a mira
Cabeças rolam na calçada... grande..
Ninguém se importa.. ninguém quer saber
Cada vida é individual, não há que dizer
Limpa-se o sangue com esfregonas
Pontapeiam-se os corpos , para as lonas
A humanidade está doente
O ser sofre , está carente
Tudo se pisa , se destrói
Chora-se de raiva , a realidade dói.
Podiam-se colocar perguntas
Questionar procedimentos, minutas
Nada vale a pena, e se resolve
Solta-se o tiro, tudo encobre.
Cospe-se na cara de almas envelhecidas
Ignora-se a irmandade e o amor
Canções do sentimento, já desaparecidas
Aqui apenas reside o frio , a dor.
A Humanidade está doente
O ser sofre, está carente
Tudo se pisa, se destrói
Chora-se de raiva, a realidade dói.
Sonhos passam.
Suores sorriem tristemente
Lágrimas perfumadas de alegria
Contidas entusiasticamente
Com suspiros estridentes
De terror harmonioso.
Pálpebras cerram-se tortuosamente
Face encavada de desejos escondidos.
Divina na sua aparição adormecida...
Que jaze apodrecida no majestoso
Campo de batalha...
Soberbo nos seus aposentos assassinos
Cárceres imundos de criações monstruosas
Imagem irreal , profecias de bestas...
Carne libertada no doce luar de Inverno
Animais uivam pacificamente
Um pouco de atenção.
Deixem passar...
A caravana da vida
Deixem lavar...
A roupa embriagada de sonhos esqueléticos
Deixem sorrir
A criança que escava a sua própria cova
Acordem
Algo....
Comprem o bilhete da vida
Não o deixem
Esgotar...
A caneta discorre o pensamento
Alinhamento obscuro... lento
Fogo de recordações.. saudade
Corre o rio da vida, da amizade.
Droga impura jorras no vazio
Alimentas a veia sedenta de paz
Corpos sujos oscilam no rio
Brisa gritante... que o ar traz.
Entoações de poetas escondidos
Limar de arestas, duma canção
Refúgio da calma, tons perdidos
Emerge o aroma do coração.
Inalar o perfume oculto
Libertar a raiva , o sentimento
Aproveitar o sonho, minuto a minuto
Esquecer a dor, o tormento.
Pormenores dispostos ao acaso
Doce som , divina paixão
Une-se a alma, cria-se o laço
Crê-se na amada ilusão.
Entoações de poetas escondidos
Limar de arestas , duma canção
Refúgio da calma, tons perdidos
Emerge o aroma do coração.
Comprou-se o bilhete. O filme é um thriller, cujo enredo parece bastante interessante e sedutor. Preparamo-nos para uma viagem que está prestes a começar. As luzes apagam-se completamente, o ecrã começa a debitar as imagens do nosso contentamento, deleite da vista e da curiosidade. Apreciamo-nos e deixamo-nos voar, sempre sentados no nosso lugar.
Chegou o intervalo, e as nossas preocupações começam agora. Está tudo estragado, porque reconhecemos na plateia inúmeras individualidades e seres passíveis de minarem o nosso deleite cinematográfico. Essas mesmas pessoas retornam aos seus lugares, e os nossos piores cenários são agora realidade. Todas envergam massivos baldes de pipocas nas mãos, preparadíssimas para as desgustarem alarvemente, enquanto o filme retoma o seu percurso narrativo. E o som de um mastigar, multiplicado por dezenas, parece fazer ruir o tecto do cinema, assim como o chwingar de pastilhas. O voo acabou, e o nosso esforço por conduzir a nossa atenção para o filme, parece inglório, porque invariavelmente focamos a pessoa que atrás, ou à frente, mastiga sem parar o seu balde de pipocas. E pensamos, abençoados baldes, sacos, saquinhos e merdinhas para comer, acabem depressa, que eu quero ver o filme! E tenho escrito! :)
Busco no meu baú de recordações, remontando a tempos não muito distantes ( felizmente, porque implica eu não ser assim tão velho ), e encontro umas férias de Verão, completamente tresloucadas e fora de controlo, com muito álcool,festas, ramboias e demais acontecimentos desgovernados. No entanto, em todos esses dias, por volta da uma, duas da manhã, o chamamento para casa era uma constante. Um episódio de Seinfeld era algo sempre imperdível, até para depois poder adormecer melhor, ou quem sabe, voltar a sair para continuar uma noite de modo mais bem disposto e animado.
Seinfeld foi uma daquelas séries que marca um período, uma vivência, que marca acontecimentos e os molda de maneira diferente, mais viva e fresca, perfumada e divertida. Como esquecer-me dos desvarios hilariantes de Kramer, do contido cinismo eloquente de Jerry Seinfeld, da louca paranóia tresloucada de George! Elaine, a mulher do grupo, ajustava-se num estereótipo de mulher independente e que sabe o que quer, sem ser completamente independente e saber realmente o que quer :). E depois apareciam os namorados, as situações de confusão, as conversas de café, os jantares, as idas ao frigorífico, o episódio 100, o episódio de Natal, o último episódio :( Que dor na alma, quando o último episódio foi emitido. Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje... A tristeza de sentir que novos acontecimentos eram impossíveis, que as histórias daqueles seres ficariam perdidas no tempo, porque nunca mais resgatadas e continuadas.
Como esquecer o Newman, aquele sacana que todos nós temos no prédio ou conhecemos de vista, oportunista, mas irremediavelmente apelativo.
Grande série sem dúvida. Um dos momentos televisivos de eleição. Ainda bem que ainda conservo religiosamente duas ou três k7 vídeo de episódios, para de vez em quando saciar a saudade, encontrar-me com os meus "velhos amigos". Afinal todas aquelas histórias por eles passadas, faziam-me lembrar o meu grupo de amigos, algumas das nossas histórias.
Tenho escrito! :)
À pouco mais de 5 anos, a RTP 1 emitiu uma série de Chris Carter, cujo enredo era bastante interessante. Infelizmente ( com muita pena minha ) não vi os primeiros episódios, mas o final da primeira, e toda a segunda série não me escapou. Com uma temática diferente dos X-Files, a série retratava a vida de um anterior agente do FBI, que se encontrava ligado a uma organização muito misteriosa, o grupo Milénio, a qual lidava com ícones e temáticas relacionadas com o novo milénio. Pese embora o facto de se encontrar agora um pouco datada, tal não retirava qualidade ou impacto a uma reposição por parte da estação televisiva, na medida em que os actores eram estrondosos ( principalmente Lance Henriksen, na pele de Frank Black ), os argumentos ( especialmente da segunda série ) muito bem conseguidos, e mais importante que tudo, fazia-nos pensar, sofrer pelo próximo episódio e desgustar vertiginosamente cada pedacinho de história e enredo.
Recordo-me com nostalgia das noites de Domingo, tarde para mim naquela altura porque no outro dia tinha aulas. Porém nunca abdicava daquele momento, e cada episódio era para mim um acontecimento especial e único. Tristemente, a Rtp deixou-nos com o final da segunda série, e muito por explicar ou mostrar. A terceira série não foi emitida, e pese embora o facto de em termos de qualidade ter sido muito inferior às anteriores, foi uma pena o telespectador português não poder verificar isso mesmo com os seus olhos, ou emitir os seus próprios juízos de valor.
O espantoso genérico, com uma música espectacular ( arrisco a dizer que ultrapassa em muito o genérico de abertura dos X-Files ), um elenco muito bem equilibrado, aliado a uma estrutura narrativa sólida, enigmática, muito interessante e densa, e com variadas e incisivas críticas e/ou apontamentos que faziam pensar e meditar quem via, fizeram da série uma das inesquecíveis experiências televisivas que tive na minha adolescência. Confesso que nunca fui um grande apreciador dos X-Files, ao contrário de Millenium, que me agarrou completamente ao ecrã.
Como esquecer-me da assustadora, cruel e demoníaca Lucy Waters? Como não relembrar-me da mítica casa amarela de Frank Black, escondendo demónios, vivências e acontecimentos? A série era extremamente familiar, porque incidia sobre fantasmas físicos e psicológicos que todos temos, sobre problemas gerais na nossa sociedade. Tudo embebido em águas místicas, roçando o sobrenatural, porque não visto, não tendo explicação científica, mas sentido.
Uma grande série, que aqui recordo com extrema nostalgia e saudade. E tenho escrito!
Looking out the door i see the rain fall upon the funeral mourners
Parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
And maybe i'm too young to keep good love from going wrong
But tonight you're on my mind so you never know
When i'm broken down and hungry for your love with no way to feed it
Where are you tonight, child you know how much i need it
Too young to hold on and too old to just break free and run
Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one
So i'll wait for you... and i'll burn
Will I ever see your sweet return
Oh will I ever learn
Oh lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come
It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever
Well maybe i'm just too young
To keep good love from going wrong
Oh... lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for you
Lover, you should've come over
'Cause it's not too late
Poor girl, no Ma
Nothing much to speak of but a rough diamond
Sleep now and your angels will come, dear
Poor Matilda
Handcuffed to the wheel
And steering wildly
Through love's fields, so blindly
Forever only takes its toll on some
But, tonight you're sleeping alone without him
Tonight you're sleeping alone without him
And everything went up in smoke like wildflowers
Wildflowers, dear
Poor girl, lonely
Shuffles through the parade
Of a sleepless circus serenade
Hold on, dear
Poor girl, no Ma
Sister steals her a coat
For the windless breezes
Sleep now and Jesus will come, dear
Forever only takes it's toll on some
But, tonight you're sleeping alone without him
Tonight you're sleeping alone without him
And everything went up in smoke like wild flowers
Wildflowers, dear
Pois é, um novo ano lectivo aproxima-se. E recorro a qualquer opinião vossa, que me ajude numa digna e grandiosa missão. Ao passar dos anos a minha criatividade e novas ideias têm vindo a estagnar progressivamente. Como veterano ( quatro matrículas, já doi no coração, a boa vida está a acabar ), tenho o dever de manter uma tradição ( como todos os meus colegas ), mas gostaria de fazê-lo de modo divertido, sempre fresco e diferente. Falo claro está, das praxes académicas. Existem aquelas essenciais, existem as outras menos essenciais, existem as estúpidas que são tudo menos praxes, e existem as "nem aquece nem arrefece". Pedia-vos, a quem lê o que escrevo, que ajudassem esta pobre alma, com sugestões de boas praxes para se fazer, quer a rapazes, quer a raparigas ( já que posso praxar ambos ). Obrigado desde já, e boas sugestões! Eu bem preciso delas! :)
É verdade.. O verão começa a fraquejar timidamente. Os longos dias já foram, dando lugar a pedacinhos cada vez mais ténues de luz solar, que se vê e se deseja para furar por entre as cada vez mais frequentes nuvens pautando o céu. Os dias pequeninos, em que se chega a casa já noite cerrada, começam a preparar as suas armas para aparecer em força. Pessoalmente, não gosto do Outono ou do Inverno. Não combinam com o meu estado de espírito, muito solar, necessitando de brilho, de luz, de alegria para se sentir bem. No Inverno enlaço-me nos seus dias tristes, cinzentos e gelados. Fico também extremamente melancólico, como a vista que pincela o espaço. E o que falar do Outono, quando todas as folhas vestem as ruas, mensageiro do Inverno, violador do Verão alegre e risonho... Não gosto do Outono, não gosto do Inverno, mas gosto de acordar quentinho, olhar lá para fora e ouvir a chuva.. Não gosto de ter que sair da cama para mais um dia, nem de apanhar chuvadas, ou de ficar com o guarda chuva todo rasgado perante um vendaval. Mas gosto de um chocolate quente, de uma lareira companheira de um bom filme...
Não gosto, gosto... Afinal tudo depende de gostos, de inclinações, de desejos e personalidades. A minha agarra o sol, e ama o mar...
Cigarros minando o ar e o respirar...por onde quer que possamos ir, a visão é invariável,pelo menos encontraremos uma pessoa a saciar o desgraçado vício. E pronuncio-me como completo pecador, pois sou também uma "vítima" do acto em si. Ao contrário do que muitos dos estudos afirmam, eu não sou da opinião que o acto de fumar represente uma atitude ou demarcação social, de status. Infelizmente,direi. Porque se assim fosse, largar a porcaria da nicotina e do tabaco seria tão mais fácil. É certo que no início, acaba sempre por ter uma pontinha de afirmação social, por mais ténue que seja.. Depois, depois abraçam-nos problemáticas, descargos de consciência e dramas físicos.
À pouco tempo tomei uma decisão drástica. Se bem que na idade em que me encontro, os tais malefícios provenientes do tabaco possam ainda não acercar-se com grande intensidade ( se bem que estão à espreita a qualquer altura ), no futuro cada pequeno momento com o cigarro na boca irá repercutir-se na vida pessoal, ambiente físico e psicológico. Por isso, reduzi para metade a quantidade de cigarros fumados, esperando progressivamente diminuir ainda mais. Sei que não consigo abdicar de um, dois cigarros, talvez três por dia, mas tal facto já representa uma grande vitória, para um fumador de 1 maço por dia.
Curioso será constatar que, tal atitude deveu-se, no seu trajecto derradeiro, a uma visão de um maço camel contendo aqueles avisos "macabros" a negro denso e feio, com letras quase garrafais "Fumar mata". E andei três longos anos lendo, relendo, voltando a ler tais afirmações e avisos, completamente sereno. Andamos todos, nós que fumamos o nosso cigarrinho a seguir ao almoço, ao cafézito, quando estamos nervosos, para afugentar as preocupações.
Agora programo rigorosamente o dia em termos de cigarros fumados. Reparto manhã, tarde e noite, com x cigarros por fase do dia, e daí não pode passar, seja por qualquer desculpa. Vício maldito este, mas todos poderemos sair dele. Eu não queria, e de algum modo ainda não quero sair totalmente, porque acho que conseguia deixar de fumar totalmente. Mas é que a seguir ao almoço, ao jantar, é tão, tão dificil passar sem um...
Fumar mata. Mata sim senhor. E pior é que é por estupidez, por saciar de um vício maior que nós. E mata de diferentes formas, todas elas dolorosas e soturnas.
Não descanso enquanto conseguir fumar 3 cigarros por dia. Vai ser muito dificil, pior ainda em tempo de frequências, de trabalhos, de estágio. Mas tem que ser. E o que tem que ser tem muita força. Tenho escrito!
Acontece que o músico é um excelente compositor, músico e "leading man". Aliás,todos os instrumentos utilizados no seu álbum de estreia são tocados por ele. Surgiu no filme dos irmãos Farelly, "Me, myself and Irene", ao compor a banda sonora, e onde se podem ouvir duas músicas suas, "Just another" e "Strange Condition". Essa sua participação e suas composições, chamaram a atenção para si, conseguindo gravar o seu álbum de estreia, já por mim referido. Possui um conjunto de músicas muito bem conseguidas, onde pontifica a sua voz rouca e extremamente melódica, suportada por letras muito aceitáveis.
Ainda à pouco tempo, numa pesquisa pela loja FNAC, poderia encontrar o single For Nancy, e a BSO do filme "Me,myself and irene", mas o seu álbum de originais não...E nunca o apanhei na FNAC. Ou esgotou sempre que foi posto à venda, ou então nunca esteve... É triste, muito triste. Abençoada Internet, que me forneceu os dois álbuns, e as melodias necessárias ao saciar da minha curiosidade e sagacidade auditiva. Depois disso já "hipnotisei" muitos amigos e conhecidos meus, que se renderam às músicas do homem.
Ele até passou algumas vezes na rádio, até falavam dele e tudo, mas álbum nem vê-lo. Recebi-o nos anos, e o amigo que o ofereceu, merecia uma medalha de ouro, pois vim a saber que sofreu bem para o arranjar.
Portanto, quem vir um destes dois álbuns, "Musicforthemorningafter" e "Day I forgot", ganhou o dia e uma recompensa, porque eles procuram-se
Vivos ou mortos, riscados ou não riscados :)
Não queria tornar este pequeno comentário, um exercício "envenenado" de crítica ao mercado português, mas com mta pena minha ( ui ! :) ) terei que o fazer.
Ao falar de Jeff Buckley, recordei-me de um episódio musical do meu percurso, sobre o qual ainda hoje me rio e penso um bocadinho. Quando o primeiro álbum do Pete Yorn saiu, Musicforthemorningafter, eu já o conhecia minimamente. Numa das minhas pesquisas, aconteceu sacar uma das suas músicas sem querer, a qual gostei bastante ( Just another ). Tirei mais uma e mais outra, e decidi comprar o álbum. Tarefa herculénea, fiquei a saber mais tarde.
Ao procurar em várias discotecas, e perguntar pelo citado álbum, recebi inúmeras vezes ( de uma frequência de perder as estribeiras! ) a resposta se não era o cd da Yorn ( Soundsystem ) que estava à procura. Dizia-lhes que não, diziam-me que deveria estar enganado, pois tal artista não figurava em nenhuma das bases de dados das discotecas. Em nenhuma! Desisti de o comprar, algumas semanas depois, quando me disseram que o álbum que procurava o poderia encontrar apenas por importação ( não valia a pena ir comprar a Jojo´s Music pois com as merdas, saquei as músicas todas e ficou o problema resolvido ).
Se fosse, e perdoem-me a frontalidade, a merda dos Backstreet Boys, ou Shakira, ou Enrique Iglesias ( nada tenho contra os artistas, só não gosto deles ), o álbum novo estava nos top´s, e às molhadas nas prateleiras das discotecas, logo no dia de lançamento. Como era Pete Yorn ( cujo álbum de estreia foi um sucesso de vendas e de crítica nos E.U.A ) vá-se lá saber porquê, o álbum só chegou para aí 4 ou 5 meses depois a Portugal.
Voltam o fazer o mesmo ao homem, no segundo álbum de originais, porque teimoso como eu sou, procurei saber se o mesmo estava à venda em Portugal. Não está, e já foi lançado à sensivelmente 2 meses. Podemos ( quem quiser ) comprá-lo na Jojo´s music, versão de importação. Também já não quero, porque o saquei da net. E depois queixam-se que as vendas estão baixas e blá blá blá... Às vezes o que nos interessa e que é de fulcral investimento, encontra-se no outro lado do Mundo. Shakira´s, Barbies e Ken´s a cantar não quero obrigado, quero mesmo música a sério...
Falo de Jeff Buckley... Uma voz que embala, adocica,abraça,cativa a essência... Mais que acordes transpirando no odor do tempo e da memória, fica-nos a voz profundamente surreal, os timbres quase impossíveis, a metamorfose gélida de tons e notas vocais. Mais que uma simples melodia gravada num cd, numa cassette, fica-nos a doçura de um momento, o timbre envolvendo o nosso respirar. "Dream Brother", por exemplo, leva-nos a uma viagem cujo fim parece nunca mais chegar, um voo que pincelamos nós mesmos, criando uma viagem a partir de um bilhete que nos é oferecido, uma oportunidade de meditarmos e nos encontrarmos.
A originalidade das suas versões, adaptações sinceras,densas e sentidas, algumas de músicas não muito conhecidas, a paixão com que criava, recriava e voltava a recriar, cada pedacinho de sentir, de estar, cada momento e sentimento palpitando no coração.
O canto que consegue gelar um coração, no início da música "Mojo Pin", quando a voz engole um todo, passando a representar todos os instrumentos, toda a narrativa poética e musical...
Tristeza melancólica e dorida, o saber que já não está aqui, vítima de um acidente infeliz e trágico. As suas músicas, o seu divino dom, a sua voz, perduram na imortalidade de um sentir, de uma arte e essência.
Músicas fundamentais ( para mim ) - Dream Brother ( de preferência ao vivo ), Mojo Pin, Grace, Lilac Wine, Hallelluiah, Everybody here wants you.
Álbuns imprescindíveis - Grace, Live at Olympia e Mistery White Boy.
Anterior grupo de Ryan Adams, apresenta um repertório de músicas também elas francamente apetecíveis e interessantes. No entanto,é marcadamente mais country, do que a carreira a solo de Ryan Adams, mas isso não lhe retira qualidade instrumental e criativa. Existem algumas músicas que não me cativaram por aí além, mas geralmente, em todos os seus álbuns, encontram-se sempre três ou quatro músicas que engolem todo o todo, pela sua beleza, simplicidade e qualidade musical.
Músicas essenciais ( para mim ) - Don´t wanna know why, Easy hearts, Avenues, Don´t be sad, Houses on the hill, Ballad of Carol Lynn.
À algum tempo, depois de mais uma vasta pesquisa na internet, dei de caras( literalmente! ) com um artista, cujo nome era completamente desconhecido. Por mera curiosidade, saquei uma música dele, já que gosto de conhecer um pouco de tudo, no que diz respeito ao panorama musical. Americano de gema, enraízado na cultura country mais alternativa, pensei que muito dificilmente me iria seduzir pela sua música. Nada mais errado... a sua música surpreendeu-me completamente...
A música que tivera sacado passou a fazer parte de todos os meus dias, e rapidamente outras se juntaram, acabando eu por ter todos os seus 3 albuns editados. O que o distingue é o seu enorme talento de compositor, agregado a uma voz francamente agradável, fundida de tons roucos e sentidos. Ainda é muito novo ( menos do que eu é verdade ), tem 24 anos, mas é considerado uma das certezas ( e não promessas ) da nova country, e do panorama musical.
No entanto não caracterizaria muito a sua música de country, apesar de alguns dos acordes e instrumentos utilizados na sua música remontarem a essas raízes, porque ela constitui muito mais do que um simples exercício de música country.
A ouvir e a desgustar intemporal e infinitamente.
Músicas essenciais - The fools we are as men, La Cienga just smiled, Sylvia Plath, Blue, When the stars go blue, Wild flower.
Que vejo perante mim? Cruel melancolia dissidente
Cruel ocidente trucidando um ser demente
Na fervura disforme da calçada estática, sem cor.
Que vejo perante a saudade? Qual doce divindade
Bebendo do rio seco a pureza da pedra de jade.
Na loucura distante do esquecimento atroz, sem dor.
Que vejo perante a escuridão? Estão-te roubando o pão.
Sem compaixão ou amor, correm sem qualquer razão
E nos seus rostos queima o sal de recordações sacras.
E na solidão aparente de um ser beijando a noite
Tatua-se a esperança num sol que nasça abençoado
Por uma realidade que destrua todos os fantasmas gélidos
Que faça nascer um deserto jorrando água. Sem medos.
Que faça nascer uma visão impossível. Milagre de Vida.
Saciar de sonhos, de uma vontade que guiará o Mundo
Tornará as estrelas companheiras de uma vontade inigualável.
Tornará as asas algo de tão possível como o ar que respiramos.
Crença no voo rumo às maravilhas ocultas no espaço.
Voo rumo a tudo o que se esconde por entre o ódio humano.
Na semente do deserto cresce o poder único da verdade.
Do sentimento. Do amor. Da pura divindade.
Por isso os homens cederem à sua energia.
Por isso os homens não resistirem aos encantos do deserto.
Ao seu charme afrodisíaco , perfume de sóis e luas.
Vacilam perante tanta beleza, perante a eminência de uma descoberta.
A semente do deserto. A verdadeira essência de Ser Vivo. De Sentir.
E morrem, vociferando a sua triste sina. Amaldiçoando o Destino.
Quando não sabem que tão perto estiveram. Do verdadeiro conhecimento.
Perto da morte observei a divina aparição do desconhecido.
Acolhi nos meus ténues braços a semente de todas as Vidas.
A semente do Amor. Da pureza. Da Vida.
No deserto encontrei a poção do Mundo.
Para as suas feridas abertas. Escorrendo ódio e descrença.
Na minha essência ouvi a criança.
O seu respirar. A sua voz ditando a minha vida.
O que se escondia por entre todas estas sombras.
Vales densos de dor e escuridão anestesiantes.
Doce raiz de sonhos. De um voo impossível de despedaçar.
Porque eu sou conhecedor do teu sabor. Da tua divindade.
Sou conhecedor do meu amor. Da minha liberdade.
Deserto. Areal denso de tanto por conhecer.
Areal de tesouros escondidos na descrença humana.
Não sobre rios de ouro ou especiarias.
Mas sob uma face cantando sem interregno.
Que é parte de nós.
O teu nome o escreve as estrelas.
Márcia. A tons doirado. Como o denso areal.
Para o meu amor, vida, futuro e alma, Márcia...
Soltam-se gritos gélidos de dor
Abraçando o ondular resplandecente do oásis
Num céu tatuado de estrelas orientais.
Com os seus olhos postos no caleidoscópio de sentidos
A criança corre o areal com os seus pés desnudados
Incessante, acaricia a atmosfera com a sua inocência
E contem na sua mão todo o foco de divindade.
Nas lágrimas que porventura beijarão a sua face
Estará a recordação de uma passagem com glória
Por todo um memorial intenso de fragrâncias.
Por toda uma verdade tão límpida e pura.
Doirado tom que beijas a minha face
Suspiros sussurrando ao vento agreste
E na alma a tatuagem de um amor invencível.
Ouço os seus passos, melódicos e simples
Percorrer as viagens de sonhos e de desejos
Anseio pelo seu toque, névoa de paixão.
Clamo pela sua chama, envolta em perdição.
Permaneço solto. Na aragem envolta em mistério.
Sobre os turbantes da incógnita viagem incessante.
Permaneço consciente. Nos uivos destilados ao vento...
Nos acordes sentidos e que sinto penetrar no meu ser...
Colares transcendentais envolvem os corpos perdidos
Acariciando uma visão que aquece com o calor do sol
E convida o corpo a moldar asas... tecidas a ouro.
Ouro de deserto. Grãos de Mundo. Crença num Todo.
Onde as mãos acolham a miragem eclipsal.
O destino impossível de negar. O destino que eu guio.
Que guiamos. Com o nosso corpo. Com as nossas mãos.
Dá-me as mãos. A sua face jorra alegria e brilho.
Entrega-me o seu dom. A sua divindade.
A criança encontrou-me nas areias do deserto.
Molda uma face. Um rosto. Uma perdição.
Entoa-me a frase do destino. De uma visão que guiará uma vida.
Nas areias quentes da Vida. Desenhou a tua voz.
O teu sorriso. O teu calor.
E disse-me... Será esta quem irás amar.
Será esta quem a tua vida quererá acolher.
Será esta a tua outra alma. Tua essência.
Fez-se noite. Fez-se luz cega e linda escuridão.
E voou ao vento. Deixando uma certeza.
A invocação. O soletrar de uma verdadeira aparição.
A areia tatuava-se de fogo ardente....
E nela espelhava-se no céu o calor e poder
De um amor.
O nosso.
A criança cresce dentro de mim.
Tenho-a comigo sempre na minha alma
Dedicado ao meu grande amor e vida, Márcia.
Nas árvores destila o aroma
Paixões idosas , velho idioma
Outrora lar de divindade
Agora refúgio de saudade.
Museu envelhecido de sonhos
Odores soturnos.. tristonhos
A alma pede força e vontade
Combate a dor , a maldade.
Corre comigo no refúgio do sonho
Envolve o meu ser.. sedento
Destroi o reflexo.. medonho
Ama-me.. num suspiro lento.
Caminhada iluminada de esperanças
Pisa-se o chão de lágrimas mansas
Na noite fiel e paciente
Grito a minha dor... doente.
Luta amaldiçoada e disforme
O ser despedaça-se.. dorme
Outro dia , outra habitação
Deixar-me-ei guiar.. pelo coração.
Corre comigo no refúgio do sonho
Envolve o meu ser.. sedento
Destroi o reflexo.. medonho
Ama-me.. num suspiro lento.
Dúvidas que cercam a alma
Torturam a paz, a calma...
Evita-se o sofrimento
O ser fica doente... sonolento
As mãos doridas caçam a presa
A chama mantém-se imóvel.. acesa.
Calor que inundas o momento
Capta a lembrança... o tormento.
Fumo fugaz de divindade irrisória
Incendeia a luz, a memória
Canção desesperada de sonhos
Desfilam animais... medonhos...
O vazio preenche a prateleira
Inunda de poeira disforme
Parasitas alimentam-se da madeira
Um corpo desiste... dorme.
É o final de uma prece
O encerrar de uma vida
A memória... que nunca cesse
Porque a alma... está perdida.
A criança percorre o espaço... acha no vazio a velha boneca de trapos... Está suja , manchada do tempo e da inconstância.. Parece ter um sorriso envelhecido, enrugado num destino cruel. Jogada ao acaso , mergulhada no escuro de um quarto esquecido e mórbido. Na sua inocência irresistível , a criança pega com as suas mãos sedosas na boneca... Brinca com ela , fá-la participar na sua alegria , na sua preocupada despreocupação. Leva-a para os confins do sonho , da alegria e da aventura. Dá-lhe atenção , mima-a como só as crianças sabem fazer... Lava a sua cara envolta em nódoas... Limpa a sua face... e o sorriso parece novo. Leva consigo a boneca... Para o seu quarto, para o seu recanto quente de sonhos e de amor. É a sua nova amiga. Aquela a quem lhe vai dizer todos os segredos....
Uma porta abre-se sorrateiramente... a criança movimenta os seus olhos ternurentos. Capta a imagem da sua mãe , ouve a sua voz atenciosa e carinhosa. Mas fica triste... Começa a chorar... Tem pena... Não compreende....
" Deixa-me levar a boneca filha,,, essa boneca é muito velha , está cheia de bichos maus, que fazem mal.... deixa-me pô-la onde estava... "
A boneca desaparece... A criança perde a sua nova amiga... a quem tinha contado alguns segredos. Com quem tinha corrido, saltado... com quem tinha rido.... A boneca de trapos. Com o sorriso envelhecido , sujo e distante. Que entretanto deixara de o ser.
A menina chora... tem pena.... não compreende...
Abre-se a porta... e vê-se a boneca de trapos... a apodrecer... a morrer devagarinho... aos poucos... Suja .... Rota .... Abandonada....
A criança hoje é adulta...
E nunca se esqueceu da sua boneca.
De trapos.
No fundo da solidão
Eclode sem perdão
A sombra do desconhecido
Banhando o sono perdido...
Na pintura triste do céu
Discorre incessante o véu
Envolto em disforme saudade
Grita a raiva da ténue vontade...
Rasgar o pranto dilacerante da cor
Sem perdão , aniquilar a dor
Que envolve os teus braços perdidos
Na clausura de dois destinos.
Duas asas que acariciam um amor
Tatuagem melancólica enigmática
Uivo irradiando o opaco odor
Como alma... feiticeira apática...
E se tentas alcançar as suas mãos...
Verás na sombra dos seus olhos escuros
Escapar os ténues gemidos sãos...
Não se ouvem... São mudos...
Se tentas saciar a tua fome
Na beleza do seu rosto
Verás que o brilho te come
Transformando-te num monstro...
Será o enigma a chave do divino ?
A porta para o outro destino ?
Aquele que se oculta na prerrogativa
De te sentires nativa...
Presas na imensidão do Todo
Rasgando a pequenez do Nada
Banhando o rio de lodo
São as lágrimas de uma fada...
Por um destino que corrompe
Por uma mentira que se esconde
No silêncio de duas essências
Na tristeza de algumas crenças...
Fada...
Entoa a melodia de um conto
Enfeitiça o monstro.
Transforma a feiticeira
Numa monstruosidade.
Para que sempre
Se possam amar.
Sabem o que é o sonho, o que é a divindade? O que é o amor que tudo cura e limpa? É o mundo que vemos nascer perante os nossos olhos... a nossa alma, que julgávamos perdida... e no final será um todo, testemunho de uma eternidade.
Sabem o que é um suspiro? Um grito de amor? É morarmos no cume do mundo e vermos que ele é apenas o que sentimos... o que queremos. Vermos que temos tudo dentro de nós, porque somos o que somos... por esse amor.
in "Retalhos de Sentir" - Livro ainda não publicado
O que fazer quando todos os sonhos se despedaçam numa gritante explosão existencial, e tudo o que resta se encontra fragmentado no chão sujo e velho de memórias? O que fazer quando tudo o que nos resta está humildemente prostrado no chão, paciente tímido de uma realidade que ultrapassa a força e o desejo oculto, uma realidade que se encontra tatuada e moldada em cada rosto que nos cerca, libertando a mesma mágoa, semelhante dor e infortúnio.
O que fazer quando o amor que guia uma vida adoece subitamente, tolhido por uma desesperada crueldade, sinónimo de uma desistência súbita e trágica, derramando nas ruelas e calçadas do espírito o cruel odor de sangue fresco e mórbido, escorrendo infame nos suspiros do ar confidente, ondulando suave por entre existências e lugares.
Tanto por fazer e por lutar, alicerces por suportar na distante corrida languida de corpos e seres. Tanto por conquistar, reclamando a nossa força e o nosso espírito, procurando recuperar tudo o que um dia fomos e queremos novamente voltar a ser. Encontrar a nossa essência, o sabor dos sonhos que agora apodrecem inúteis e abandonados. Mas foram nossos e sempre serão. Defender, conquistar, lutar. Palavras tão poderosas quando sentidas e exercidas, mas de nula utilidade quando apenas vomitadas num simples desabafo, ou num pedaço corrupto de papel.
Todas as respostas têm um útero formador, um veículo transmissor que as molda, criando o núcleo vivo e imperecível de uma nova realidade ávida por uma posse que a proteja, a sua integridade e o seu amor. Estaremos preparados para as respostas que a nós se depararam? Estaremos preparados para um novo mundo, brilhante realidade que num novo dia clama apaixonadamente por atenção? Odiamos o novo, o diferente, tudo aquilo que fura com a estabilidade, normalidade vigente envenenando os nossos corações. O puro e corajoso acto de arriscar encontra-se engolido por páginas poeirentas de dicionários e de álbuns de fotografia. Quem não arrisca não petisca, afirma o velho ditado. Talvez não queiramos petiscar, ou estamos demasiado ocupados em petiscar o gasto e sofrível, doloroso e disforme. Existência banal, sem rasgos de divindade, luta e desejo. Sem pinceladas de amor e de irmandade, apenas tolhida pela necessidade bárbara de obtenção de rendimentos físicos e materiais que apodrecem rapidamente no colo e na gula do Homem. Ao fim ao cabo estamos todos tolhidos pela atmosfera vil e podre da doença que tudo desmembra e destrói, porque somos todos simples e simpáticos ignorantes, temendo mais que tudo a morte, mas caminhando rapidamente para o seu leito. Para nunca mais regressar.
É tão cruel a dor que beija e molda a nossa face , quando a lágrima salgada parece invocar um mar, anterior refúgio de um amor pretérito. Quando o sangue que escorre de uma ferida aberta recupera na mente a visão acolhedora de alguém que no passado nos curava as feridas.. E agora, olhamos para o lado.. o que vemos ? Ninguém.. Ninguém como essência , ninguém elevando a sua alma, mostrando o seu coração de mãos abertas. Apenas vejo mercenários correndo atrás de riquezas, saciando a sua fome de poder , nem que seja à custa de sangue alheio.. A crueldade humana ultrapassa os seus próprios limites... vertiginosamente.
Corro dilacerante atrás de uma solução. Que cure todas estas feridas abertas. Procuro a espada da Luz que corte a densa névoa de escuridão que colhe as faces que vejo perante mim. Só vejo pessoas mergulhadas na solidão. Estão envoltas em mantos densos de pessoas.. Mas as suas essências estão enterradas. No medo de sofrer, de se entregar a uma vida que não é finita.. E guardam-se por vezes até à morte, prisioneiras de um trabalho e de uma nota que nada significa, que não devia ter nenhum valor. Porque se colhem vidas sem a mínima preocupação , vidas essas que algumas vezes tinham acariciado o sonho de lágrimas sentidas , que tinham abraçado o amor e a esperança. Talvez tivessem tecido asas de sonho , e querendo ser anjos , colhessem outra essência e desferissem juntos um voo rumo ao amor eterno. Infeliz destino, rouba-lhes as vidas sem contemplações. E uma faca , ou uma bala trespassa toda essa realidade. Os sonhos são desmembrados, a essência esquartejada, queimada como algo inútil, ficando a nota apodrecida no chão. Correndo uma mão cruel para a agarrar imediatamente. E as sirenes tocam, as pessoas olham para o corpo abandonado num jazigo. Está lá uma fotografia, mas a sua essência? A sua vida ? Os seus sonhos ? A sua paixão ? Flores ambientam o ar, tentando aromatizar o odor da morte, e as lágrimas beijam a lápide, desferindo cânticos sentidos de dor e tristeza. Quando por vezes tal acontece somente por algo que é feito de papel...dói tanto.. penso nisto sempre que tenho oportunidade de o fazer.
A injustiça paira lentamente nos confins soturnos da existência humana, trucidando o idealismo e a solidariedade entre povos que devia tatuar o céu imensamente grandioso de sonhos e desejos. Cada vez mais entoam nos confins da realidade que pincela os nossos sentidos , a profunda apatia e envenenamento de almas e essências, esquecendo uma visão que inunda todo o mundo, a qual o alimenta de uma forma cada vez mais opressora. Avassaladora imagem aquela que rasga o horizonte ditando aromas putrefactos de sangue e fome a escorrer nos corpos desnudados e protegidos de crianças inocentes, testemunhas de uma realidade que trucida os olhos de quem vê dolorosamente. Os seus choros são testemunhas de uma vida percorrida sobre o manto disforme e esquartejante da tristeza e conformismo por um destino que parece tolhido de negro logo à nascença. Algumas crianças nascem mortas, a sua essência é capturada selvagicamente por espíritos vestidos de negro fúnebre, dizendo-se eles nome de uma realidade que molda cada vez mais o homem, tornando-o o animal egoísta e egocêntrico que vemos agora espelhar nas ruas, nas cidades, no Mundo.
Triste sina... maldito devir
Quem te ama... Quem te quer ?
Pobre ser que não tens a solução
O dom de enfeitiçar.. invocar a razão.
Contar a melodia afrodisíaca
Clamar o perfume de paixões
Sentir o viver... viver o sentir
Tudo se esfuma.. oásis de perdões.
Pensamento inocente e puro
Chamas fogosas de dor
Aquece a vontade, cria o futuro
Luta pelo teu amor.
Questões que inundam o momento
Suspiros que discorrem ao vento
Liberta-te e limpa a face
Mata a tristeza , o teu cárcere.
A noite cerra as suas garras
Manto obscuro e tenebroso
O ser foge... oculta as suas armas
Momento disforme... doloroso.
Quem te ama... Quem te quer...
Questões que inundam o momento
Suspiros que discorrem ao vento
Liberta-te e limpa a face
Mata a tristeza , o teu cárcere.
Uma casa abandonada
Clama por uma alma
Solitária e apaixonada
Que acolha em si um pedaço
Adormecido de história.
Dois testemunhos do passado distante
Unidos num laço pretérito de compaixão
De amor.
Uma atmosfera estagnada boia
Ardentemente
Nos confins poeirentos do sonho pretérito.
Ocultados por quatro paredes forradas
Por seres
Idosos.
Caminho lentamente
Ouvindo os meus passos soar
Lá fora, no vazio triste e verdejante
Da floresta
Avisto o último choro
O derradeiro suspiro
De uma alma abandonada por todos...
Mas que me acolheu
Na sua pequenez...
E eu com ela
Fiquei para sempre
Maior.
Como Homem
Como Ser.
Velha glória idosa
Não me esquecerei
De ti.