junho 14, 2004

Esquecimento

O simples facto de criar algo, a partir da sua criatividade e capacidade individual, desafiava a alma a libertar-se das amarras meramente teóricas, ao mesmo tempo que o impulsionava a agarrar sonhos, lutando por eles, acreditando na sua existência como realidade a ser concretizada. O Homem define-se pela sua capacidade e integridade para sonhar. Como negar a afirmação de tão saudoso poeta, que o sonho comanda a vida, quando ele é basicamente o néctar que adocica um respirar e uma percepção metafísica perante nós próprios? Como negar a evidência de um destino, que nos enumera os vários caminhos a seguir e seleccionar, pelos quais deveremos lutar com a nossa integridade, abraçando as nossas qualidades e características? Deveremos criar esse destino, ignorando a doce fragrância de um sonho que transfigura o real, recriando-o e fornecendo-lhe novos patamares e asas brilhantes? Não partilhava dessa opinião, e as suas motivações eram mais que suficientes para lutar pela concretização de um projecto, de uma actividade que para ele desempenhava um papel primordial no seu desenvolvimento e crescimento, como Homem, ser humano físico e espiritual.
As pessoas esquecem-se quem um dia foram, quem um dia desejaram ser. As pessoas olvidam o facto de que dentro delas possuem eternamente o que as definiu como sendo elas para elas próprias. Nós somos sempre algo de bom para nós, por mais defeitos que possamos ser. E principalmente, as pessoas deixam escapar a sua divindade, em prol de vivências burguesas e meramente técnicas, sem uma chama de verdadeiro incenso ardendo fogosamente em seus corações. Sobrevivem a uma realidade que poderia ser tecida da sua vida. Sobrevivem quando poderiam recriar a sua própria vivência, lutando pelo que são e pelo que querem ser. Sobrevivem tendo conhecimento do seu prazo de validade, e nada fazem para o renovar, ou renascer da penumbra a figura física do seu espelho, e a sua figura espiritual da sua alma.
Pedro já se sentira miseramente só, abandonado na escuridão de caminhos e fragrâncias tortuosas. Já tivera caído e sofrido nas inconstâncias do tempo e da vontade. Já tivera perecido na desistência de um combate e batalha, mergulhado na tristeza decadente de ver as suas mãos crispadas de sangue no aroma putrefacto do campo de batalha. Agora chegara a altura de dizer “basta!”, embarcar numa jornada onde já tivera comprado bilhete, lutar pelo que era e pelos seus sonhos, demonstrar ao Mundo que ocupava um lugar, não em vão, mas para enunciar a plenos pulmões o seu poema existencial, a sua vivência, o perfume que julgava e acreditava ter dentro de si.
Nem tudo eram palavras bonitas, nem tudo eram representações lindíssimas de força, vontade e vigor. Tinha profunda consciência do risco que corria, da possibilidade de que algo que defendia poder representar um profundo falhanço. Mas isso não o atemorizava. Dava-lhe alento, coragem, espírito de combate. Nada nasce sem trabalho, amor e dedicação. Nada nasce sem ser fecundado de um embrião, de uma mãe alma e essência que nos cria, acredita em nós e nos ama como seu filho. O seu projecto era o seu filho, e a sua espada de batalha, a sua alma e sua crença em si próprio.


In Diário de Bordo

Publicado por Ray_Manzarek em junho 14, 2004 12:42 PM
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junho 14, 2004
Esquecimento

O simples facto de criar algo, a partir da sua criatividade e capacidade individual, desafiava a alma a libertar-se das amarras meramente teóricas, ao mesmo tempo que o impulsionava a agarrar sonhos, lutando por eles, acreditando na sua existência como realidade a ser concretizada. O Homem define-se pela sua capacidade e integridade para sonhar. Como negar a afirmação de tão saudoso poeta, que o sonho comanda a vida, quando ele é basicamente o néctar que adocica um respirar e uma percepção metafísica perante nós próprios? Como negar a evidência de um destino, que nos enumera os vários caminhos a seguir e seleccionar, pelos quais deveremos lutar com a nossa integridade, abraçando as nossas qualidades e características? Deveremos criar esse destino, ignorando a doce fragrância de um sonho que transfigura o real, recriando-o e fornecendo-lhe novos patamares e asas brilhantes? Não partilhava dessa opinião, e as suas motivações eram mais que suficientes para lutar pela concretização de um projecto, de uma actividade que para ele desempenhava um papel primordial no seu desenvolvimento e crescimento, como Homem, ser humano físico e espiritual.
As pessoas esquecem-se quem um dia foram, quem um dia desejaram ser. As pessoas olvidam o facto de que dentro delas possuem eternamente o que as definiu como sendo elas para elas próprias. Nós somos sempre algo de bom para nós, por mais defeitos que possamos ser. E principalmente, as pessoas deixam escapar a sua divindade, em prol de vivências burguesas e meramente técnicas, sem uma chama de verdadeiro incenso ardendo fogosamente em seus corações. Sobrevivem a uma realidade que poderia ser tecida da sua vida. Sobrevivem quando poderiam recriar a sua própria vivência, lutando pelo que são e pelo que querem ser. Sobrevivem tendo conhecimento do seu prazo de validade, e nada fazem para o renovar, ou renascer da penumbra a figura física do seu espelho, e a sua figura espiritual da sua alma.
Pedro já se sentira miseramente só, abandonado na escuridão de caminhos e fragrâncias tortuosas. Já tivera caído e sofrido nas inconstâncias do tempo e da vontade. Já tivera perecido na desistência de um combate e batalha, mergulhado na tristeza decadente de ver as suas mãos crispadas de sangue no aroma putrefacto do campo de batalha. Agora chegara a altura de dizer “basta!”, embarcar numa jornada onde já tivera comprado bilhete, lutar pelo que era e pelos seus sonhos, demonstrar ao Mundo que ocupava um lugar, não em vão, mas para enunciar a plenos pulmões o seu poema existencial, a sua vivência, o perfume que julgava e acreditava ter dentro de si.
Nem tudo eram palavras bonitas, nem tudo eram representações lindíssimas de força, vontade e vigor. Tinha profunda consciência do risco que corria, da possibilidade de que algo que defendia poder representar um profundo falhanço. Mas isso não o atemorizava. Dava-lhe alento, coragem, espírito de combate. Nada nasce sem trabalho, amor e dedicação. Nada nasce sem ser fecundado de um embrião, de uma mãe alma e essência que nos cria, acredita em nós e nos ama como seu filho. O seu projecto era o seu filho, e a sua espada de batalha, a sua alma e sua crença em si próprio.


In Diário de Bordo

posted by Ray_Manzarek at 12:42 PM
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