junho 10, 2004

Homens bons e Homens maus

Falar de violação, no cru e nu sentido da palavra, implica desmistificar a natureza mais bárbara e hedionda do Homem. O acto de violentar uma outra pessoa, independentemente do seu sexo, ainda mais quando esse acto se torna físico e sexual, representa uma das atitudes mais vis e desprezíveis que o ser humano consegue exercer. Pedro relembrava filmes que o tinham marcado, onde essa particularidade negra do ser humano era abordada de forma directa e incisiva, e registava dentro da sua individualidade a profunda repulsa e raiva que tivera sentido quando os tinha visto. Atentar contra a liberdade e a natureza física e psíquica de uma pessoa, é somente retirar-lhe o direito a ser ela própria e a tomar e meditar sobre as suas escolhas. Quando por exemplo, um homem violenta uma mulher, ele não só está a demonstrar a sua mediocridade e barbaridade, como também enuncia a sua impotência perante os valores da compreensão, da liberdade e do amor. Quem desempenha determinado acto, muitas vezes mais do que uma vez, possuí em si, não só muitos complexos e traumas vivenciais, como também abraça dentro da sua personalidade e individualidade o gosto em ser mau. Era esta a opinião de Pedro, depois de visionar o pequeno documentário sobre o conflito e guerra na Bósnia, que levou a um desumano desmembrar e genocídio de povos e culturas, a par de um completo atentado à liberdade e direitos humanos individuais. Abordando a especificidade do documentário, ele apresentava relatos de mulheres vítimas de atentados graves à sua integridade física, sexual e psicológica, prisioneiras de guerra de um movimento hediondo e desumano, alicerçado em figuras e intelectos minados pelo descontrolo, pela arrogância e pseudo mentalidade superiora. Pedro sentira raiva e desprezo, descontrolo e tristeza. Porque as palavras sibilando na sala, ecoando por entre mentalidades e pessoas diferentes, permaneciam quentes e febris, como testemunhas de uma realidade que nunca se irá apagar, por mais sopros de tempo que rasguem a existência e o fluir histórico do Mundo. Sentira dor ao ver o sofrimento na cara daquelas mulheres, sobreviventes de um holocausto que destapara a natureza por vezes assustadora do Homem, quando envereda por caminhos que visam sobretudo demarcar a sua superioridade, assim como da sua raça, em relação e punindo as demais. Quando toma esse caminho, torna-se um animal na verdadeira acepção da palavra, porque age segundo instintos, renunciando à razão que permanece no seu intelecto, e que posteriormente tenta anular. Para Pedro a situação apresentada assentava em dois pilares fulcrais e em interacção. Primeiro, parecia para ele inegável, o gosto e a motivação de tais homens a desempenhar situações e acções tão cruas, bárbaras e desprezíveis. Se não o sentissem, jamais as conseguiriam fazer, porque o ser humano, em situações normais ( quando não é obrigado, quando se encontra bem psicológica e fisicamente ), se é bom jamais conseguirá fazer mal a outro, por mais que as suas ideologias, maneira de pensar e cultura se dissemelhe a do outro. Ao contrário do que muitas pessoas lhe afirmavam, Pedro acreditava no Homem, não como um ser bom por natureza, mas como um ser neutro por natureza. Queria isto dizer que, apesar da educação contribuir muito para a conveniência e orientação de um ser para determinado caminho, ele nunca deverá ser a única justificação para colmatar um comportamento sociológico desviante. Pedro enervava-se por vezes com a visão de seres predominantemente bons, tomando rédeas vis na sua vida directamente e apenas resultado de traumas psicológicos e da sua educação. Para ele nada era mais incoerente, porque embora esses factores sejam por vezes a justificação, eles não poderão abarcar toda a multiplicidade de indivíduos e acções que caracterizam esses movimentos desviantes. A resposta encontra-se no foro particular do indivíduo, na sua aptidão natural para determinado caminho escolhido. Se optar pelo bem, o mal será visto como algo cruel, desumano e factor resultante da dor e do sofrimento. Será portanto uma realidade com a qual o homem terá dificuldade em lidar, quando fizer sofrer alguém sem o querer. O mal regista a tendência natural do indivíduo para agir segundo os parâmetros que acha satisfazer as suas necessidades, que passam efectivamente por fazer sofrer e alimentar-se da dor dos outros. Esta realidade era para Pedro, evidente. Acreditava na existência de seres que predominantemente, são maus numa comparação global. Podem e deverão ter a capacidade de amar, no entanto as suas capacidades serão sempre importunadas e desmembradas pela sua sede de dor e sofrimento. Por vezes eles próprios alimentam-se de um sofrimento intrínseco, alimentando a sua necessidade.
Quando olhava para a realidade, a qual já conhecia, mas agora novamente gritante e voluptuosa na tela, eram estes os pensamentos que invadiam o seu ser e discernimento. Não encontrava outra maneira para justificar os profundos e hediondos atentados a uma infinidade de mulheres, violadas na sua honra, vida e amor, retiradas dos seus filhos, de suas casas e maridos, unicamente para passar a viver uma existência de dor, violação e sofrimento. Ceifar uma individualidade, esquartejá-la num ápice, enquanto se satisfaz um desejo meramente irracional, animal, completamente desprezível, é algo que os Homens não têm direito, legitimidade, nem deveriam ter poder para o fazer.
Como justificar estes actos? A defesa de um pretenso país e nacionalidade? De uma raça e pureza superiores? Uma merda! Existem pessoas que vivem unicamente com esse “dom”, estendendo-o até onde podem e conseguem. O “dom” de fazer sofrer e de se alimentar desse sofrimento com um sorriso nos lábios, porque se sentem bem a fazê-lo.
E quantas pessoas neste mundo já sentiram na pele tal acto hediondo, desprezível, desumano e irracional? Quantas delas viram desmoronar o seu mundo, nos minutos da violação, raptadas por um ser que as violenta sem qualquer tipo de conflito interior, minado apenas por uma satisfação rápida dos seus impulsos de animal, cujo poder lhe tolhe os movimentos, a percepção, a inteligência e sensibilidade que deveria possuir. Quantas mulheres choram de profunda dor, vendo os seus corpos e a sua alma devassadas, por vezes por completos estranhos, por vezes por pessoas que pensavam conhecer tão bem, e não sabem o que fazer ou o que pensar. Inundam-se em sofrimento e dor, por uma perda perante elas próprias, por um acontecimento que nunca se poderá apagar das suas recordações e da sua vivência.
Para Pedro esta realidade era tão verídica como o facto de a bondade nunca poder ser totalitária num indivíduo, assim como a maldade. Todos nós já fizemos mal ou bem, uma ou outra vez, por querer ou sem querer. Esta evidência faz parte do percurso do ser humano.
Pedro caminhava envolto na melancolia e na meditação introspectiva. A violação de uma mulher abominava-o, inundava os seus pensamentos de desprezo e raiva. Compreender o ser humano é tão complexo como viver o momento, com calma e contemplação.

Publicado por Ray_Manzarek em junho 10, 2004 09:44 PM
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junho 10, 2004
Homens bons e Homens maus
posted by Ray_Manzarek at 09:44 PM
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