A viagem perdida de uma alma rumo ao infinito. A algo que não é palpável, mas que sente existir por trás das penumbras da memória. O doce envolver de um corpo na atmosfera gelada de sentimentos, condensados num sofrimento que estala vazio, perante as estátuas inertes do pensamento. Quando as asas que temos se partem, perante um pranto de lágrimas, o coração desespera num canto adormecido. O campo de batalha que se avistava, robusto e espesso, de armas dispostas no chão, era desejado por nós porque acreditavamos na nossa força, nos desejos sussurrando a um ouvido e a uma essência intemporais.
Jornada que se despe de cor, ao mesmo tempo que o repasto outrora brilhante, inundado de sorrisos que coloriam o espaço, retrata a dor de não reconhecer uma atmosfera. Aquilo que nos veste agora, é somente manto de novas paragens, uma situação que ultrapassa a alma doente, carente de uma atenção de si própria.
E com a cara enlameada, um corpo dorido e completamente abandonado, olhamos para o espaço, tendo orgulho por nós próprios. Abraçamos a honra que sempre nos deve inundar o coração e a essência e delicadamente, começamos a escrever o nosso novo futuro. Com dedicação, afinco e amor.
Amor, esse nobre sentir, rei de seres e de almas, rainha de invocações e de memórias, cadeado do nosso coração e da nossa alma. Quando desperto e completamente viciado na loucura, faz-nos percorrer milhas incessantes de liberdade e felicidade. Quando espevitando todas as profundezas do nosso ser, faz-nos sentir capazes de engolir o mundo e o espaço. E somos oásis sem fim, divindade perdida nos claustros do mundo. Somos filhos de todas as estrelas, toda a cor e brilho que habita nos limiares cerrados do mundo. Somos alguém, somos tudo, num nada que com maior impacto nos envolve em todo o nosso discorrer existencial.
Quando despidos sem perdão, retirados da tatuagem que pensavamos infinita, estamos tristemente sozinhos. E a viagem acabou, o bilhete caducou, assim como uma vida que já não tem o mesmo sabor, a profunda divindade com que banhava o nosso acordar. Esse acordar agora é envolto no vazio, de uma escuridão mórbida que tolha os nossos olhos de lágrimas de raiva e de uma ilusão que se desvaneceu perante o cântico da cidade adormecida.
As pessoas que caminham lá fora, as suas faces parecendo esconder tanta tristeza permanecida num coração esquecido, são agora representações fieis de nós próprios. E tomamos outras medidas, a nossa atenção é agora redobrada. Identificamo-nos, somos novamente Homens e Mulheres. Numa solidão partilhada, com tantos outros seres que, diariamente, caminham.. e caminham, e caminham...
Mas neste campo de batalha de mil armas e destinos, regado a diferentes intensidades existenciais, a chuva que nos molha a face e o corpo, poderá ter o sabor da nossa essência, da força e da honra que sentimos pulsar na alma que nos reveste. A flauta que pincela os céus com a sua melodia refrescante, é somente uma das armas que possuimos para, com dignidade, retirarmos um corpo do chão e movermo-nos. Sem medo. Para uma viagem que nunca poderá acabar. Para uma viagem que só terá um fim quando a nossa voz se calar.
E ele levantou-se...depois de sofrer em silêncio e derramado em lágrimas. Levantou-se e percorreu o espaço. Ouvindo um coração, um respirar.