Estava cansado. Não só de planificações, teorias, ou necessidades educativas e práticas. Essencialmente estava cansado perante a dura realidade que por vezes despe a sua verdadeira face, demonstrando a natureza que a molda e a faz ser isso mesmo, realidade. Estava cansado de olhar para dentro de si próprio, reconhecer sonhos, ideias e aspirações grandiosas, mas prostrar-se depois perante a evidência da dita realidade. Eram tudo doces ilusões, as palavras proferidas no auge dos sonhos que nos vestem e dão cor. Agora via que não tinha possibilidade de fazer o estágio que sempre sonhara. Não com a sua completa entrega, dedicação e empenhamento. Não porque não o quisesse, mas porque não tinha qualquer possibilidade de o fazer. Os dois trabalhos de grupo para entregar logo depois, as duas frequências perto para as quais era preciso estudar, o chumbo de uma cadeira, a outra em atraso, não o deixavam entregar-se. Por mais que sentisse que isso era indispensável para o sucesso do seu projecto, para a sensação de preenchimento existencial, as preocupações inerentes ao curso ecoavam sempre na sua memória. Roubavam-lhe o sono, como as hipotéticas injustiças, que para ele eram realidade crua e dura. E como isso doía, como lhe magoava o respirar e trucidava a pertinência e atenção perante o pulsar e crescimento do seu próprio projecto.
Diário de Bordo