janeiro 09, 2004

Irreversível

Falar deste filme consiste num exercício complicado de crítica. Cilindrado aquando da sua estreia, pela sua violência expressa e saliente, foi também ostracizado por ser bastante gráfico e hipoteticamente estilizado. No entanto, outros afirmaram o valor e a força do filme, afirmando que não era para todos, e que quem o visse teria que confrontar os factos e meditar sobre eles. E aqui este ponto é que me interessa agarrar. Debatendo o filme com muitos amigos meus, lendo opiniões e críticas nos mais diversos meios ( tais como a imdb na net ), cheguei à conclusão que muitos defendiam a redução da famosa cena da violação de Monica Belucci. Eu não defendo. Não defendo e passo a explicar porquê.
Um filme tem que ser vivido, experienciado, mais que um exercício de visionamento, temos que sentir intimidade e co-existência com as personagens. Acreditar que aquilo que estamos a receber é fruto de uma realidade que nos cerca e que nos diz directamente respeito. Ao aparecer a cena de violação, qualquer um de nós sente um desejo sobrehumano de intervir, de acabar com tamanha degradação e podridão humana. Sente uma raiva intensa por observar a testemunha que nada faz, lá ao fundo, indo-se embora. Sentimos a força do momento, a podridão, o sofrimento da vítima, a sua dor e as suas lágrimas. Mais que uma cena dispensável, ela é essencial para compreendermos a raiva e o instinto feroz com que o ex-namorado mata o pretenso assassino no final com o extintor. Todo o seu carinho por ela, e a raiva e mágoa reprimida pela sua barbára violação, são libertados naquela demonstração de natureza primitiva do Homem. Nunca poderá constituir violência gratuita o facto de nos ser oferecida a possibilidade de vermos nua e cruamente a realidade pelos olhos do realizador.
Uma violação ( felizmente, graças a Deus, nunca testemunhei nenhuma ) deverá ser parecida com a cena do filme. E aí encontra-se a força da cena. Mais que sugestionar ao espectador o que vai acontecer, o realizador Gaspar Noé, mostra-nos sem artimanhas ou lirismos falsos a brutalidade, podridão e nojo que o homem pode ser. E isso nunca será violência gratuita, quando sabemos que acontece no dia a dia. Não é fruto da imaginação do realizador, é uma realidade que felizmente, muitos de nós não sentimos ou vemos, mas que aqui nos foi oferecida a possibilidade de experienciar. A nossa raiva nasce do facto de sermos obrigados a confrontar a verdade sem podermos fazer nada, compreendendo depois a raiva, dor e instintos assassinos do namorado de Monica Belucci, e posteriormente também, do seu ex namorado.
As duas cenas mais violentas do filme, que suscitaram toda uma onda de polémica e ódio por parte de alguns críticos e "iluminados" de cinema, são para mim indispensáveis para a completa inserção no seu tecido narrativo, ao mesmo tempo que nos fazem chorar de dor e de sofrimento. Não vou negar que me custou imenso ver as duas cenas, e procurei sempre desviar o olhar uma ou outra vez. No entanto permaneci até ao fim, sentindo raiva, nojo e desprezo. Um filme que mexe com as nossas emoções desta maneira, não pode ser um mau filme. Porque o faz de modo consciente, directo e ser artimanhas. Conta uma história que parece real e concretizável, em qualquer ponto do mundo. O violador não é um ser sobre humano, ou uma ameaça extraterrestre. É um fruto podre e amargo que infelizmente existe em muitas sociedades, que procura saciar os seus vícios da maneira mais porca e hedionda que existe.
Recomendo o visionamento deste filme, mas com restrições para aqueles que são particularmente sensíveis. É um filme que se quer visto de coração e mente aberta, mas onde sentimos uma raiva e dor imensa. Não podemos fazer nada. E é isso que mais dói.

Publicado por Ray_Manzarek em janeiro 9, 2004 03:43 PM
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janeiro 09, 2004
Irreversível

Falar deste filme consiste num exercício complicado de crítica. Cilindrado aquando da sua estreia, pela sua violência expressa e saliente, foi também ostracizado por ser bastante gráfico e hipoteticamente estilizado. No entanto, outros afirmaram o valor e a força do filme, afirmando que não era para todos, e que quem o visse teria que confrontar os factos e meditar sobre eles. E aqui este ponto é que me interessa agarrar. Debatendo o filme com muitos amigos meus, lendo opiniões e críticas nos mais diversos meios ( tais como a imdb na net ), cheguei à conclusão que muitos defendiam a redução da famosa cena da violação de Monica Belucci. Eu não defendo. Não defendo e passo a explicar porquê.
Um filme tem que ser vivido, experienciado, mais que um exercício de visionamento, temos que sentir intimidade e co-existência com as personagens. Acreditar que aquilo que estamos a receber é fruto de uma realidade que nos cerca e que nos diz directamente respeito. Ao aparecer a cena de violação, qualquer um de nós sente um desejo sobrehumano de intervir, de acabar com tamanha degradação e podridão humana. Sente uma raiva intensa por observar a testemunha que nada faz, lá ao fundo, indo-se embora. Sentimos a força do momento, a podridão, o sofrimento da vítima, a sua dor e as suas lágrimas. Mais que uma cena dispensável, ela é essencial para compreendermos a raiva e o instinto feroz com que o ex-namorado mata o pretenso assassino no final com o extintor. Todo o seu carinho por ela, e a raiva e mágoa reprimida pela sua barbára violação, são libertados naquela demonstração de natureza primitiva do Homem. Nunca poderá constituir violência gratuita o facto de nos ser oferecida a possibilidade de vermos nua e cruamente a realidade pelos olhos do realizador.
Uma violação ( felizmente, graças a Deus, nunca testemunhei nenhuma ) deverá ser parecida com a cena do filme. E aí encontra-se a força da cena. Mais que sugestionar ao espectador o que vai acontecer, o realizador Gaspar Noé, mostra-nos sem artimanhas ou lirismos falsos a brutalidade, podridão e nojo que o homem pode ser. E isso nunca será violência gratuita, quando sabemos que acontece no dia a dia. Não é fruto da imaginação do realizador, é uma realidade que felizmente, muitos de nós não sentimos ou vemos, mas que aqui nos foi oferecida a possibilidade de experienciar. A nossa raiva nasce do facto de sermos obrigados a confrontar a verdade sem podermos fazer nada, compreendendo depois a raiva, dor e instintos assassinos do namorado de Monica Belucci, e posteriormente também, do seu ex namorado.
As duas cenas mais violentas do filme, que suscitaram toda uma onda de polémica e ódio por parte de alguns críticos e "iluminados" de cinema, são para mim indispensáveis para a completa inserção no seu tecido narrativo, ao mesmo tempo que nos fazem chorar de dor e de sofrimento. Não vou negar que me custou imenso ver as duas cenas, e procurei sempre desviar o olhar uma ou outra vez. No entanto permaneci até ao fim, sentindo raiva, nojo e desprezo. Um filme que mexe com as nossas emoções desta maneira, não pode ser um mau filme. Porque o faz de modo consciente, directo e ser artimanhas. Conta uma história que parece real e concretizável, em qualquer ponto do mundo. O violador não é um ser sobre humano, ou uma ameaça extraterrestre. É um fruto podre e amargo que infelizmente existe em muitas sociedades, que procura saciar os seus vícios da maneira mais porca e hedionda que existe.
Recomendo o visionamento deste filme, mas com restrições para aqueles que são particularmente sensíveis. É um filme que se quer visto de coração e mente aberta, mas onde sentimos uma raiva e dor imensa. Não podemos fazer nada. E é isso que mais dói.

posted by Ray_Manzarek at 03:43 PM
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