outubro 11, 2003

E se...

A vida numa cidade é digna de um livro, pensou. Tomou como dica este seu pensamento. “O que pensariam as pessoas se por acaso escrevesse um livro sobre mim?” E agora essa pergunta invadia-lhe a alma. Realmente, pegando nos seus últimos dias, seria algo parecido com muitas filosofias, muitos argumentos e pouco trabalho. Se calhar até diriam que a vida dela era nada fazer. Estar todos os dias em casa, a pensar em qualquer coisa, ir tomar um café e ir para o trabalho.
Retalhos de sentir seria o nome. Era uma expressão que à já algum tempo abraçava a sua alma e essência e na qual encontrava muito de si. Retalhos de um sentir para ela implicava o dissertar e o partilhar de filosofias, traços indistintos de uma individualidade, tatuados numa folha, quer através de caracteres, pinturas ou até música. Arte como um pequeno abraçar de essência, desflorar de parte da individualidade que todos identificamos dentro de nós. Retalhos de sentir bebia de uma essência o seu ventre gerador e moderador, justificação para uma possível redescoberta e partilha reconfortante. Seriam os seus Retalhos de Sentir.

Sorria timidamente imaginando os contornos densos do seu “filme”, nascendo fervorosamente, avassalador, fundindo o sabor de sonhos, mas também de disparates, com sessão de autógrafos incluída e tudo. Máquinas fotográficas e flashes, inundando o espaço, bebendo do talento e dedicação de um indivíduo, o seu ganha pão tatuado numa simples película fotográfica como exposição capitalista e material, exploração de uma imagem, saciar ávido de curiosidade e voyerismo. No entanto duvidava do sucesso do seu hipotético livro ( o qual seria muito difícil de acontecer, porque não se imaginava como sendo uma escritora ). Quem se iria dar ao trabalho de ler fosse o que fosse, emanado de si, das profundezas sentidas da sua essência e alma, retractadas numa filosofia que a abraçava, constituindo muito de si e das suas acções conscientes?. Se ainda fosse uma história de assédio sexual, de fuga para o estrangeiro por um amor, de mortes e sangue, de traição. Mas de filosofias de vida, de pontos de vista, nada disso interessa. Para as maioria das pessoas, ao lerem o seu “hipotético” livro, saltaria logo um comentário característico, “ Credo, esta mulher não fazia nada senão estar a pensar na vida?” , “Ia ao trabalho só de vez em quando”, “Pensa tanto que não diz nada de jeito” , “Se trabalhasse mesmo a sério como eu, isso sim, não tinha tempo nem sequer para respirar e já não dizia coisas destas” , ou mesmo, “Mas o que é que ela está para aqui a dizer? Não percebo uma palavra do que aqui está”
Seria assim, tinha quase a certeza. Uns chamar-lhe-iam doida, outros ficariam a olhar para os seus escritos com uma visão qualquer coisa como “escreve coisas muito lindas para encher papel”. Porque é mesmo assim. As pessoas agora não estão interessadas numa vida banal, mesmo que fale de sonhos, do Mundo e da Vida. Mesmo que fale de lutas, de Esperança e de Amor. Estão interessadas na mesquinhez, na salada russa de telenovelas. As pessoas não vivem a sua vida, vivem a dos outros. Aqueles que não são reais, aqueles que se criam num e para um ecrã. E que desaparecem no tempo, sem nunca terem realmente existido. Ela, mesmo que escrevesse alguma coisa, mesmo que fosse algo real, nunca teria hipótese de passar a sua mensagem, de entoar o sentimento e a vontade inocente de tentar mudar o Mundo, através de uma filosofia que a definia e em que acreditava mais que tudo. Que a fazia ser ela, diferente de todos os outros, que fazia com que todos os outros fossem diferentes dela. Mas iria alguém perceber... Patrícia torcia o nariz. Certamente que muito poucos.


Retalhos de Sentir - Pequeno livro da minha autoria

Publicado por Ray_Manzarek em outubro 11, 2003 07:12 PM
Comentários
« Não querer sonhar... | Main | Triste realidade »
outubro 11, 2003
E se...

A vida numa cidade é digna de um livro, pensou. Tomou como dica este seu pensamento. “O que pensariam as pessoas se por acaso escrevesse um livro sobre mim?” E agora essa pergunta invadia-lhe a alma. Realmente, pegando nos seus últimos dias, seria algo parecido com muitas filosofias, muitos argumentos e pouco trabalho. Se calhar até diriam que a vida dela era nada fazer. Estar todos os dias em casa, a pensar em qualquer coisa, ir tomar um café e ir para o trabalho.
Retalhos de sentir seria o nome. Era uma expressão que à já algum tempo abraçava a sua alma e essência e na qual encontrava muito de si. Retalhos de um sentir para ela implicava o dissertar e o partilhar de filosofias, traços indistintos de uma individualidade, tatuados numa folha, quer através de caracteres, pinturas ou até música. Arte como um pequeno abraçar de essência, desflorar de parte da individualidade que todos identificamos dentro de nós. Retalhos de sentir bebia de uma essência o seu ventre gerador e moderador, justificação para uma possível redescoberta e partilha reconfortante. Seriam os seus Retalhos de Sentir.

posted by Ray_Manzarek at 07:12 PM
Comments

Post a comment
Name:


Email Address:


URL:


Comments:


Remember info?