Espaços livres rareavam na penumbra da cidade. Sonhos fumegantes ondulavam imensos no céu envelhecido, doente cativo de uma acção opressora e a ele extremamente nociva, resultado da ignorância e obsessão do espírito humano. Os sonhos procuravam quem um dia os amou e mais tarde cedeu aos infortúnios da existência, derramando toda a força outrora revigorante, despedaçando réstias de divindade que lhe acariciavam a alma. E agora voavam sem rumo, observando a crueldade humana, tentando perceber porque é que um dia foram tão desejados, e agora suspiravam ao sabor do vento, dançando sobre tempos e destinos, sobre canções e invocações. O céu adoentado espelhava a essência espessa desses sonhos, conversava com eles e mostrava-lhes toda a beleza que ainda continham, que seria sempre parte indistinta dos mesmos. Um dia, os sonhos tiveram sido vida para aqueles que os desejavam. Agora eram morte e odiados, vítimas do envenenamento cada vez mais gritante, da espécie humana. Os sonhos são agora sombras disformes. Algo que não existe, algo que não é real. Mas não, os sonhos são vida, são amor, são esperança. Os sonhos são diamantes espelhados na pintura lindíssima em que consiste o Mundo. O Mundo é um sonho...
Mas tudo parece soar a falso, a disforme e cruel mentira pincelada na alma de quem crê na beleza interior das coisas e dos seres, quando se encontra a tristeza gemer na cidade, fundindo com a cor adoentada das ruas, o seu sofrimento opressor, trespassando o espaço e o horizonte, agoniante apatia generalizada fumegando nas chaminés existenciais...
In Retalhos de Sentir - Pequeno livro
Publicado por Ray_Manzarek em setembro 15, 2003 03:20 PM