O menino de sua mãe”, adaptação do poema de Fernando Pessoa, pela voz e talento de Mafalda Veiga, embebeda os nossos sentidos, abraçando a alma numa viagem que descrevemos quase inconscientemente, quiçá recordando um estudo secundário do poema em questão. E não efectuamos essa viagem de uma forma imposta, mas desejando um voo transcendental, libertando parte da nossa individualidade, pincelando o quadro com as palavras que ecoam no nosso ouvido. Palavras como “cigarreira” , “mãe”, “filho” fundem-se num todo que transmite irreversivelmente uma mensagem simples, mas tão delicada e bonita. O amor de uma mãe perante o seu filho, aquele que vê como rebento, protegendo-o das dificuldades, dos perigos e problemas. Olhando sempre por ele, suspirando no silêncio do lar preces por um amor tão distinto e imortal. Um amor que ultrapassa barreiras corpóreas e temporais, um amor que nos tolhe o coração e a essência, acariciando o nosso respirar e vivência.
E essencialmente, a mensagem que trespassa por todo um discorrer suave de acordes, batimentos suaves e uma voz acolhedora e ternurenta, é um amor de mãe, um amor que ultrapassa todas as dificuldades e atenuantes do Mundo, enlaçando essências e individualidades, perante um sentimento que engole o horizonte com o seu brilho e poder. Infelizmente, quer algumas mães, quer alguns filhos, parecem por vezes esquecer o sentimento que detêm dentro deles, que lhes dita a realidade perante os seus olhos. Outras vezes esse amor é envenenado, por dissertações inconscientes e ditames individuais, acções libertadas em expoentes de loucura. E filhos e mãe separam-se, magoados por acções e sentimentos, sofrendo dolorosamente a perda de algo que nunca terá substituição.
“O menino de sua mãe”, neste caso, como quase todos saberemos, morre no campo de batalha, servindo o seu país, a honra que o banha e dita a sua individualidade. A sua juventude apodrece no campo poeirento, onde a sua cigarreira, dada pela sua mãe com todo o seu amor, preocupação e estima. Ícone robusto de amor sincero, despedaça-se perante a viagem de um corpo, de uma alma e essência. Enquanto isso, a sua mãe em casa suspira pelo seu retorno, conduzindo as suas preces na obtenção desse objectivo nobre e límpido, sinónimo de uma preocupação e de uma tatuagem de sentir.
E quantas vezes perdemos entes queridos, engolidos pela terra e folhagem de plantas, resgatados do pó da Terra e do odor de cidades e ruas. Mas nunca residirá na fotografia estampada na campa, tudo o que foi e sempre será. Encontra-se dentro de nós, no amor que nutrimos, a sua individualidade, essência e alma. Reside em todos que o amam a sua verdade, os seus feitos, a sua beleza existencial. E se quisermos, dentro de nós nunca morrerá.
Sem amor a uma profissão, a um caminho, destino ou objectivo, os mesmos acabam por ser uma sombra oca de uma vida travada sem qualquer tipo de paixão, incentivo corpóreo e individual que nos leva a ser mais e mais. Por nós, por aqueles que estimamos e pelos quais trabalhamos e percorremos caminhos. Para nós e para eles. Sejam eles crianças, jovens, adultos ou idosos. O amor não escolhe idades. Nem a amizade.Sentir, preservar esse calor que invade o nosso corpo e apaixona a nossa alma. Sentimento de amor. Aquele que é aqui entoado com toda a ternura e emotividade. Amor de mãe por um filho que partira com destino incerto. Acabara por ser engolido pela terra e pelo calor de pólvora.
Amor, sentimento nobre por excelência, tal como a amizade. Amizade pincelada em tons tristes e melancólicos no quadro sinistro e depressivo, mas extremamente lindo e sentido, “Balada de un soldado”. Uma adaptação de Mafalda Veiga de uma outra música, de um autor espanhol desconhecido, onde a tons negros e sinistros, se relata um desabafo de um filho para uma mãe, onde este diz que acabara de matar o seu melhor amigo de infância na guerra. Amigo, companheiro de escola, companheiro de brincadeiras e de sonhos, agora morto por uma rajada de espingarda cuspida da força do seu braço, da sua vontade. “Madre, you quiero morir”, diz, para poder ir para o céu encontrar o seu amigo, continuar a partilhar vivências e sonhos, horizontes e perspectivas. Soltar abraços calorosos, gritar individualidades, repousar o corpo olhando as nuvens, recuperando a inocência de uma infância que já é tão distante.
Aquele soldado inimigo era o seu amigo José, aquele com que tanto tivera brincado de soldados e trincheiras. E agora, no presente, a inocência límpida e pura tivera dado lugar a uma realidade muito mais negra e tenebrosa do que alguma vez tivera imaginado. O céu que outrora se apresentava celeste e de um azul apaixonante, era agora manchado de lágrimas espessas de sangue podre e putrefacto, onde as nuvens declamavam odes robustas de depressão e sofrimento.
Quantas vezes a vida se veste destes contornos nus e crus, desferindo punhaladas disformes e esquartejantes em nossos rostos e individualidades? Quantas vezes nos encontramos repentinamente, na pior situação possível, vendo quem tanto amamos e preservamos, balançando no ténue fio da vida, ou então partindo sem um último adeus, e só nos apetece libertarmo-nos das amarras de vida e correr junto a eles? Ou somos engolidos por um obstáculo, barreira despedaçante e opressora que mal nos deixa respirar, impedindo uma progressão do nosso caminho corpóreo e existencial? Tudo o que pensamos é uma desistência que nos liberte do sofrimento, da dor e da amargura.
A amizade, suspiro terno e límpido abraçando o Mundo numa união de seres e almas, não vê idades, sonhos e culturas. Não se importa com questões raciais, hostilizando qualquer tipo de preconceito ou desprezo, rótulo social ou profissional, ideologia ou filosofia. A amizade e o amor sentem-se dentro de nós, acariciam partilhas e aprendizagens, espírito de entre ajuda e presença física e espiritual. Desenham um traço límpido de compreensão e estímulo, liberdade e incentivar de individualidades e essências.