O sentir encontra-se tatuado no odor do Mundo. Poderá ser numa casa, num acto apaixonado, no soltar de um timbre invocando a mágoa de uma vivência, num complexo desportivo, numa sala de aula, num trabalho. Mas é tão raro nos dias que correm, representa uma realidade tão hostilizada ou temida. Por vezes, é muito mais fácil decorar deixas inteiras, ou dar uma aula apenas soltando palavras e conhecimentos, sem uma preocupação perante um entendimento e um enriquecer metafísico e individual.
O sentir, a apaixonante descoberta de novos paladares e sabores decorrentes de ensinamentos, teorias e percepções, constitui tatuagem rara, unicamente porque as pessoas não param para pensar perante as suas próprias vidas, motivações e traços de percurso. Porque não contemplam o seu percurso, a repercussão do mesmo, os objectivos que alcançaram e pretendem alcançar, os obstáculos que já despedaçaram e os que pretendem destruir. Porque por vezes não parecem respeitar a individualidade presente em cada um dos seus alunos, as suas próprias motivações e enquadramento introspectivo e metafísico. Esquecem o que defendem nas suas palavras, tatuado em ensinamentos e conhecimentos que debitam automaticamente em suas aulas, alheios a um erro que teimosamente cometem a cada soltar lânguido de som. E seguindo o percurso das aulas, são engolidas por um poço soturno, o qual lhes cerca o espaço de acção, contribuindo para uma repercussão dos mesmos erros, ausência de expressividade, amor e paixão nas suas palavras, acções e ensinamentos. O que dizem parece oco, distante, opressor e desprovido de qualquer densidade e intimidade lógica. É oco, nu de qualquer paixão ou desejo de aquisição, flutuando no odor da sala de aula, sem que ninguém se sinta motivado para o colher. São frutos apodrecendo nos soalhos, sementes que nunca chegam a germinar, porque no acto de plantar, nem um pequeno foco de paixão se soltou no ardor do momento, na elaboração da acção, no desenraizar do percurso.
Mais importante que tudo, surge a paixão, o sentir, a elevação da essência, alma e individualidade. Mais importante que tudo, representa a defesa acérrima de valores, aprendizagens, conhecimentos, que banham um ser, que o moldam na sua enormidade existencial e metafísica. Ao partilhar parte de si próprio, embebido em mantos de paixão, proximidade, amor perante um percurso que escolheu para si, que escolheu comunicar atenciosamente com Homens e seres seus semelhantes, o professor está a apresentar perante o Mundo a sua alma, a sua essência, a limpidez de conhecimentos, de perspectivas. Está a estimular os outros a darem tudo de si próprios, cientes de um conhecimento e de um caminho que potencializará a descoberta de competências, de valores, perspectivas e ensinamentos. A aprendizagem consciente, com sabor, a aquisição de força de espírito, motivação e vontade, para criar um destino e um percurso moldado da própria individualidade, combatendo focos disformes de apatia e desilusão, despedaçando obstáculos opressores e lânguidos.
Estará, não a debitar algo que lhe é distinto ou apenas constituirá presença por pretensa aquisição académica, mas a partilhar saberes, perspectivas, parte de uma paixão e envolvimento perante uma vida e conhecimentos que partilharam o seu percurso existencial. E fá-lo-á consciente da individualidade dos seres que partilham consigo um mesmo espaço, quer físico quer espiritual, conhecedor das limitações, dos limites, do enriquecimento introspectivo e metafísico decorrente das suas acções. Preocupado com o seu objectivo legítimo, límpido e puro, que dita a enormidade existencial das suas palavras e partilhas. A que se apresenta como a realidade vincada, de que a aprendizagem e conhecimento apenas pactuam harmoniosamente, com o desejo, a autonomia, o sabor e o paladar decorrentes de uma prática vivida, consciente, parte de uma essência e individualidade.