setembro 07, 2003

I am Sam - A força do Amor

Como a tradução para português desmistifica claramente, trata-se efectivamente de uma história de amor, embora esta não se pactue em elementos e evidências consideradas “normais”. Não que se trate de uma atitude de hostilidade ou repúdio, mas porque constitui uma realidade que não pode ser de todo, considerada como habitual numa sociedade cada vez mais defensora da indiferença, desprezo e repudia por tudo o que se depare como diferente. Diferença muitas vezes é conectada a inferioridade, a mediocridade, imaturidade e desconhecimento intelectual e humano. O egocentrismo engole os claustros do sentir e do saber estar, e cada vez mais as pessoas olham para o seu próprio umbigo, despreocupando-se com os outros, com as pessoas que os tiveram ajudado anteriormente. Posteriormente sofrem na pele a injustiça que outrora cometeram, e aí deparam-se com a despedaçante e soturna realidade que moldara a sua percepção e relação com os demais.
O filme apresenta-nos a personagem de um deficiente mental, com a percepção e inteligência física comparável a uma criança de 7 anos, que educa sozinho a sua filha, já que a mesma tivera sido abandonada pela sua mãe, logo que esta tivera nascido. Embora ciente das suas limitações, Sam ( Sean Penn ), procura com todo o seu carinho, pureza de alma e de espírito ajudar a sua filha e oferecer-lhe tudo o indispensável para o seu crescimento humano, intelectual e corpóreo. Embora vivendo um handicap considerável, ele educa a sua filha com todo o amor que embebe a sua essência e alma, tornando-se esta numa criança saudável e inteligente, comunicativa e alegre. Esta, apercebe-se das limitações intelectuais do seu pai, e este aspecto irá constituir um grande problema, na medida em que a mesma intencionalmente se deixa atrasar na escola, em termos de matéria, para assim não possuir mais conhecimentos do que o seu pai. Assim que conhecem e se apercebem desta realidade, os serviços sociais retiram a criança de seu pai, contra a vontade dos dois, iniciando-se um processo judicial que irá resgatar das malhas do sentir verdadeiro e terno, da simplicidade e pureza de sentimentos e invocações corpóreas, a força da realidade e da verdade nítida e afrodisíaca, ajudando a uma descoberta entre seres e perspectivas, a uma compreensão perante a diferença, quer intelectual quer metafísica, ao mesmo tempo que eleva o sentir para um patamar indestrutível, quer a nível de cobardia humana, quer a nível de pretensos dogmas educativos e culturais.

A escolha deste filme como alvo de comentário deve-se essencialmente ao facto de apresentar uma questão consciente, mas de ténue avaliação. Deverá um pai deficiente cuidar conta da sua filha, quando porventura esta se poderá ressentir dessa realidade? Deverá este, possuindo o conhecimento e percepção intelectual equivalente a uma criança de sete anos, conseguir oferecer um futuro digno a sua filha?
São questões delicadas, para as quais, a título individual, possuo resposta que penso conseguir justificar seguindo uma linha mental de raciocínio e de evidências vivificadas no suor do Mundo.
O amor, deparando-se como o condimento divino, límpido e essencial para a educação de uma criança, ajuda a desbravar problemas trucidantes e concretizar de objectivos, abraçar de um desenvolvimento motor e filosófico da própria criança, ao mesmo tempo que eleva a sua educação a níveis de estimulação grandiosos, a uma partilha de vivências e sabores. O amor de um pai por um filho é inigualável, porque foi gerado de si, é parte de si, a representação da sua divindade perante o Mundo e perante o espaço. É um ser moldado também do seu amor, da sua presença e do seu desbravar corpóreo em busca de uma identificação pessoal. Não pretendo aqui criticar ou melindrar a situação de adopção, na medida em que acredito que as pessoas que o pretendam fazer, saibam amar e o sintam como parte indistinta da sua presença no Mundo. No entanto, quando um pai ou uma mãe amam o seu filho, não o abandonando, mas suportando-o em tudo o que fazem e sentem, tentando proporcionar a este um crescimento saudável, equilibrado e afectivo, pese embora o facto de possuírem limitações mentais ( que não coloquem em risco a integridade da criança, obviamente ), não deverão estes ser “recompensados” pelo seu amor? Pela sua presença e distinta acção, conduzida da paixão que envolve as suas essências e acções, que passa sobretudo por preservar e defender um ser gerado deles, o qual se apresenta como justificação límpida para o continuar de um percurso de vida, fio condutor existencial. E essa recompensa passa efectivamente por um resguardar de suas individualidades também, de uma valorização intrínseca da sua alma, da nobreza de espírito que lhes molda o discernimento e a percepção perante o mundo.
Sam tem plena consciência das suas limitações, do atraso que lhe banha a percepção sensorial e corpórea. No entanto ama no limiar do sentir a sua filha, desejando arduamente que esta se torne cada vez mais inteligente, ao ponto de a estimular a aprender, não ficando para trás, fazendo aquilo e lendo aquilo que ele gostaria de ler. Lutando arduamente, despendendo todos os esforços concentrados na sua força de espírito, arranja um trabalho enquadrado nas suas possibilidades, de modo a oferecer uma qualidade de vida propícia a um desenvolvimento salutar da sua filha.
Viu-a crescer, acompanhou os seus períodos de choro convulsivo, doenças lânguidas atormentando o seu respirar outrora harmonioso. Partilhou momentos, alguns ensinamentos e perspectivas. Apresentou a sua visão do Mundo, obviamente imperfeita, mas moldada de um sentir límpido e belíssimo. Sentir esse aliás, que irá despontar em todos aqueles que o rodeiam, uma nova percepção de suas identidades, motivações e estímulos, ao reconhecerem a integridade espiritual e o enorme coração que lhe banha as palavras e acções. Sam luta no limiar das suas forças e do seu sentir, por um amor e paixão que constituíram parte indistinta de uma etapa da sua vida. Que ele não esquece, abraçando com todo o seu suspiro terno e adocicado. Etapa essa que ele jamais pretende abandonar, a tarefa de pai e companheiro presente, querendo ajudar a ultrapassar problemas, a contribuir para um crescimento saudável da sua filha.
Como tivera referido anteriormente, trata-se de um assunto extremamente delicado, e obviamente, deverá sublinhar-se que infelizmente estes casos não constituem sempre realidades semelhantes. Poderão tratar-se de pessoas com deficiências mais vincadas e/ou problemáticas do que a retractada no filme, e logicamente, aí a situação surgirá com novos contornos e inserida em novos parâmetros e aspectos que urge avaliar com rigor e precisão.
No entanto, e comentando apenas a situação apresentada no filme, esta elucida uma tatuagem límpida de sentimentos, motivações e impulsos de um homem, resgatando da sua alma e essência a força que lhe molda o espírito, procurando recuperar a tutela e a presença da sua filha, adocicando os seus dias e justificando a sua presença num Mundo que cada vez mais hostiliza e repudia a sua diferença, contribuindo para um mergulhar numa atmosfera de solidão e isolamento.
A sua única motivação para um respirar diário, alimentado da paixão e do amor que sente cada vez mais crescer, portentoso e límpido dentro de si, bebe da face e da presença da filha no seu horizonte vivencial, a principal justificação. E concentra todos os seus esforços, tudo aquilo em que acredita e sente banhar-lhe a face e o suspiro de vida, para a concretização do seu sonho, límpido e brilhante, reclamando uma presença e a vitória de um amor, de um espírito paternal belíssimo e imortal.
A intergeracionalidade, como constantemente tenho abordado e referido, mais que um conceito boiando em palavras e frases correctamente articuladas e fundamentadas, consiste num sentir e num abraçar de essências, individualidades e partilhas. Na preservação e defesa de um amor, amor esse que se encontra tatuado tanto na vida, como no simples acto de comunicar, aprender e interagir com os outros, que poderão ser diferentes ou semelhantes a nós, compreender e defender a diferença como parte indistinta do habitat corpóreo e espiritual de um individuo. E neste filme surge-nos vincada a ideia e o paradigma da diferença como espectro da indiferença, do egoísmo expressivo derramado no desprezo trucidante, opressor e lânguido. Não está em causa a condenação de pessoas, o seu modo de vida e os valores que defendem. Está em causa o direito à diferença, a necessidade que muitas destas pessoas manifestam de se sentirem amadas, preservadas e defendidas na sua integridade pessoal, o que muitas vezes, infelizmente, não acontece. É de referir que muitas delas, mantêm intactas dentro de si uma multiplicidade de conhecimentos e ensinamentos que são rigorosamente menosprezados e enterrados, sobre a pretensa inferioridade que lhes banha a vivência.
A troca de conhecimentos, o saber estar e a vivência sentida e límpida perante as coisas e acontecimentos, não é caracterização única de certos homens e culturas, ou ideologias. É uma realidade que constitui um mostruário global, constituindo esta evidência um aspecto muitas vezes negligenciado por tantos, que o demonstram através das suas atitudes sem fundamento e disformes. A intergeracionalidade surge como demonstração cabal, acção prática de uma teorização consciente, reflectida e límpida. É possível, sendo estimulante, foco de desenvolvimento interior e metafísico, a troca de conhecimentos, perspectivas e ensinamentos entre pessoas diferentes. A comunicação salutar alicerçada na partilha de sonhos e vivências, criando no ser um novo horizonte, fomentando um libertar do seu suor existencial, vincado no seu derramar sincero de sentir, de estar e participar em algo que faz parte indistinta dos traços carregados da vida.
Sam possui diferenças assinaláveis. Tem dificuldades em comunicar o que sente, e por vezes é mal interpretado pelas pessoas que lhe cercam o aroma de sentir. No entanto capta a essência das mesmas, e consegue perfurar em seus corações, através do seu sentir sincero e terno, da sua sensibilidade, e do amor que defende sem sombras ou simulacros opressores. Ele é o que é, apresenta a sua individualidade ao Mundo, sem vergonha ou réstias despedaçantes de amargura. E luta, tal como todos nós, reclamando as armas que possui e os trunfos que conquistou perante a vida, por um amor, por um sentimento, pela sua vida.

Publicado por Ray_Manzarek em setembro 7, 2003 08:37 PM
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setembro 07, 2003
I am Sam - A força do Amor

Como a tradução para português desmistifica claramente, trata-se efectivamente de uma história de amor, embora esta não se pactue em elementos e evidências consideradas “normais”. Não que se trate de uma atitude de hostilidade ou repúdio, mas porque constitui uma realidade que não pode ser de todo, considerada como habitual numa sociedade cada vez mais defensora da indiferença, desprezo e repudia por tudo o que se depare como diferente. Diferença muitas vezes é conectada a inferioridade, a mediocridade, imaturidade e desconhecimento intelectual e humano. O egocentrismo engole os claustros do sentir e do saber estar, e cada vez mais as pessoas olham para o seu próprio umbigo, despreocupando-se com os outros, com as pessoas que os tiveram ajudado anteriormente. Posteriormente sofrem na pele a injustiça que outrora cometeram, e aí deparam-se com a despedaçante e soturna realidade que moldara a sua percepção e relação com os demais.
O filme apresenta-nos a personagem de um deficiente mental, com a percepção e inteligência física comparável a uma criança de 7 anos, que educa sozinho a sua filha, já que a mesma tivera sido abandonada pela sua mãe, logo que esta tivera nascido. Embora ciente das suas limitações, Sam ( Sean Penn ), procura com todo o seu carinho, pureza de alma e de espírito ajudar a sua filha e oferecer-lhe tudo o indispensável para o seu crescimento humano, intelectual e corpóreo. Embora vivendo um handicap considerável, ele educa a sua filha com todo o amor que embebe a sua essência e alma, tornando-se esta numa criança saudável e inteligente, comunicativa e alegre. Esta, apercebe-se das limitações intelectuais do seu pai, e este aspecto irá constituir um grande problema, na medida em que a mesma intencionalmente se deixa atrasar na escola, em termos de matéria, para assim não possuir mais conhecimentos do que o seu pai. Assim que conhecem e se apercebem desta realidade, os serviços sociais retiram a criança de seu pai, contra a vontade dos dois, iniciando-se um processo judicial que irá resgatar das malhas do sentir verdadeiro e terno, da simplicidade e pureza de sentimentos e invocações corpóreas, a força da realidade e da verdade nítida e afrodisíaca, ajudando a uma descoberta entre seres e perspectivas, a uma compreensão perante a diferença, quer intelectual quer metafísica, ao mesmo tempo que eleva o sentir para um patamar indestrutível, quer a nível de cobardia humana, quer a nível de pretensos dogmas educativos e culturais.

posted by Ray_Manzarek at 08:37 PM
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