O nosso percurso, jornada insaciável perseguindo o sabor e suor divino de sonhos e novas perspectivas, traçado suave, constante discorrer de aprendizagem e novos conhecimentos, será invariavelmente uma tatuagem sentida de partilha, desbravar corpóreo e existencial de novos contornos e cores, horizontes e paragens. Para um profundo sentimento de auto descoberta, defesa de autonomia e consciência introspectiva, depara-se também de extrema importância um incisivo sentido de respeito para tudo o que recebemos e traçamos percurso ao longo do nosso trajecto, atentos a diferenças e novas ideologias, sabores e paladares, que embora se apresentem como distintos, concentram também dentro de si, um brilho e limpidez dignas de um abraçar terno e reconfortante.
Aquilo que recebemos, ondulante partilha de conhecimentos, imagens resgatando da profundeza do nosso sentir, o seu verdadeiro significado e existência, são pequenos fragmentos, núcleos importantíssimos de uma acção futura consciente, conhecedora e enriquecida por essas aprendizagens. Ignorar essa evidência será somente ignorar a capacidade que todos temos de aprender com os nossos erros e escolhas menos felizes, ao mesmo tempo que adquirimos competências através de um contacto directo e consciente com pessoas semelhantes a nós, dotadas de uma visão e conhecimentos que por vezes nos complementam, ajudando-nos a ultrapassar obstáculos que, de outra maneira, pensaríamos constituir horizontes impossíveis de atingir.
Como referi anteriormente, este conhecimento que tantas vezes enumero ao longo dos meus pequenos comentários e discorrer simples de escrita, tanto poderá concentrar-se na palavra de um ser, no sorriso de uma essência, como poderá escorrer de letras líricas tatuadas em composições musicais, na paleta de cores de uma pintura sincera e límpida, num artigo transpirado do expoente do sentir e do discorrer filosófico. Poderá provir de um ensinamento, de uma partilha sincera e consciente, de um sentimento forte e apaixonante. Do amor, da amizade, do desejo de partilha e interacção entre individualidades, de um abraço solto no expoente do momento, abraçando o espaço e a irmandade entre homens. Por mais límpido e optimista que seja este comentário, a certeza de que os conhecimentos e aprendizagens nascem de mais diversas fontes, constitui uma realidade incontestável, na medida em que se depara como uma constância no nosso trajecto de descoberta individual e filosófica, no nosso desbravar e combate por objectivos e horizontes, ultrapassando problemas e lágrimas sentidas de dor, destruindo a apatia e a tristeza que teimam em entoar cada vez mais portentosamente no Mundo que todos acolhe.
Este conhecimento, uma visão belíssima do mundo e do seu espaço, um simples abraçar de almas, defesa de um sentir e de manifestação de emoções e sentimentos, poderá, logicamente, ser encontrada numa outra arte, que agora passarei a falar aqui de modo mais directo e incisivo. Falo efectivamente da sétima arte, o cinema, como instrumento importantíssimo, através das capacidades e do motor criativo que ostenta nas suas raízes, para o despertar de consciências e para uma defesa do indivíduo, do Mundo em geral, das relações, trocas e transmissão de saberes entre indivíduos em particular. Quando o filme se depara como uma criação consciente, apaixonada, terna e sincera, sentimos dentro de nós a percepção límpida de uma mensagem que ecoa directamente na nossa alma, no nosso sentir e discernimento metafísico. Acordamos mesmo que parcialmente, para uma realidade que talvez desconhecêssemos tão correctamente, adquirindo uma nova visão e perspectiva perante o assunto.
O cinema tem também este importante papel, e talvez o seu mais nobre e belo, mais que ser uma imensa máquina capitalista e fonte gigantesca de receitas financeiras, de aprendizagem e discorrer sincero de saberes e perspectivas. Tatuagem sincera de sentir, através de uma história contada para as pessoas e baseada nas pessoas, nas suas vivências, nas relações que travam diariamente no seu percurso de vida.
Quando um filme atinge essa transmissão límpida de valores, perspectivas e defesa de um sentir, de um modo quente e terno, directo e afável, verifica-se uma profunda relação de proximidade e bem-estar físico e mental, ou o antagónico, um gritante estado de depressão, tristeza e sofrimento decorrente do visionamento. Quando se fala de problemas sociais, relações apodrecendo lentamente perante os claustros tenebrosos do mundo, ou de doenças naturais envenenando o horizonte de seres, é natural que sintamos raiva e tristeza perante essas realidades. E parecem ser parte da nossa vida, talvez porque já passamos por situações semelhantes, ou conhecemos a mágoa de um respirar doloroso perante o esquartejar de valores e vivências partilhadas numa atmosfera sensorial de profundidade metafísica. Quando a imagem que filtramos cuidadosamente resgata da nossa alma o poder de um sentimento vivencial, e a essência se rasga perante a lágrima terna de compreensão e identidade individual, o cinema incisivamente alcança o objectivo nobre que ostenta no seu sentido etimológico e prático.
Mas também nos poderemos sentir extremamente reconfortados, abraçando a ternura e confidente partilha de valores, estímulo consciente de defesa de colectividades e valores comuns, quando a atmosfera de fragrâncias se reveste de contornos intimistas e belos, de horizontes pincelados de cores límpidas e optimistas. Se o filme que visionamos resgata da beleza da alma, de um quadro optimista filosófico, o seu fluir de conteúdo e orientação argumentativa, será obviamente natural a presença de um sentir envolvente, terno e sedutor.
O cinema, mais que sons e imagem fundidos numa mesma perspectiva, enlaçados num objectivo de entretenimento e contemplação, representa em alguns casos uma tatuagem consciente de uma realidade pincelada no Mundo, a partilha de saberes e conhecimentos, a transmissão apaixonada e sincera de uma mensagem, de invocações profundas, relações entre seres e individualidades, entre culturas e almas distintas.