“É necessário respeitar a propriedade intelectual alheia. Mas não existe cultura sem plágio. Sem essa fortíssima consciência de que tudo o que fazemos, dizemos e escrevemos provém de actos que vimos, ideias que ouvimos e livros que lemos. As armas e os barões assinalados? Virgílio antecipou-se a Camões. Algum drama? Não creio. A originalidade total é uma falácia, que nasce directamente da suprema arrogância de que podemos existir, e produzir, num mundo radicalmente nosso – uma tela em branco onde vamos desenhando tudo pela primeira vez. Ninguém desenha tudo pela primeira vez. Escrevo porque leio. E leio o que outros escreveram. Ad infinitum. Existe uma corrente invisível que, de geração em geração, vai passando a palavra. Até chegar às nossas mãos, ao roubo afectivo da nossa consciência agradecida. A história da cultura ocidental, ao contrário do que dizem os castos, é uma história recorrente de plágios.”
João Pereira Coutinho, in “Maxmen”