É certo que, a cada passo que se dê, local que frequentemos, ou realidade que vivenciarmos, arriscamo-nos a ouvir distintas vezes o som de um telemóvel, rompendo o silêncio, avivando a necessidade de marcar presença. Esta representa uma realidade para que todos contribuímos, e à qual não poderemos escapar inocentemente. Negar que o dito aparelho nos facilita a vida em determinadas situações, será não encarar os acontecimentos de forma sincera, mas também é verdade que noutras tantas situações e realidades, o mesmo utensílio nos prejudica, e até implica um abismal afastamento “in loco” da vertente física e intensiva dos relacionamentos e interacções sociais.
No meu caso pessoal, considero o telemóvel um utensílio dispensável, mas isso não lhe retira uma certa perseverança e toque essencial em determinados aspectos. É o meio privilegiado dos portugueses para comunicar, aparte de ser uma arma completamente capaz e eficaz de combater a monotonia ou o isolamento. Quantos de nós, sem nada para fazer, procedemos a um check up da nossa lista de contactos, agenda, dando sinal de vida com os famosíssimos toques, talvez espevitando um ou outro amigo, que já à muito tempo não dá sinal. Esta simples acção resgata-nos parcialmente do aborrecimento, ao mesmo tempo que esperamos uma resposta, completamente ansiosos por um simples toque registado no ecrã do telemóvel.
No entanto, para situações de urgência, ou para determinados labores técnicos e profissionais, o telemóvel afirma-se como um instrumento indispensável, apresentando-se como um actor interveniente e capaz de desempenhar habilmente a sua função. O que por vezes me morde o raciocínio, é ver alguém com mais do que um telemóvel, quando os utiliza a todos em tarefas e objectivos meramente de entretenimento. É de facto, um ícone cultural, a posse de um telemóvel topo de gama, todo bonitinho e arranjadinho, com melodias da moda, alegremente acenando em todo o seu esplendor, no topo da nossa mão. Eu próprio, pese embora o facto de não possuir um topo de gama, não posso afirmar que se trate de um “rafeiro”.
É um vício. Nada mais a dizer. E como todos os vícios, quando mais se alimenta, mais se apodera do nosso sentir e realidade. Antigamente, quando telemóveis não passavam de panafernália de filmes de ficção científica, eu também namorava, também comunicava com os meus amigos. Só que agora está a um, dois toques da nossa mão, simplificar completamente os movimentos e esforços. E é vê-los, todos frescos, uns mais robustos, outros lisos, parecendo vir da lipoaspiração. Ainda há os desportivos, mostrando todos os seus atributos de topo, resultado de muito trabalho de ginásio tecnológico. Ou os “produtos de cosmética” que nos dizem o peso correcto que deveríamos ter. Surgem aqueles que gostam de se mascarar, umas vezes de máquina fotográfica digital, outras vezes de leitor de mp3, ainda de consola de jogos, ou jukebox... E pergunto eu, quem é que para isto? Os telemóveis afinal, são ou não são para telefonar?