agosto 26, 2003

O que fazer?

O que fazer quando todos os sonhos se despedaçam numa gritante explosão existencial, e tudo o que resta se encontra fragmentado no chão sujo e velho de memórias? O que fazer quando tudo o que nos resta está humildemente prostrado no chão, paciente tímido de uma realidade que ultrapassa a força e o desejo oculto, uma realidade que se encontra tatuada e moldada em cada rosto que nos cerca, libertando a mesma mágoa, semelhante dor e infortúnio.
O que fazer quando o amor que guia uma vida adoece subitamente, tolhido por uma desesperada crueldade, sinónimo de uma desistência súbita e trágica, derramando nas ruelas e calçadas do espírito o cruel odor de sangue fresco e mórbido, escorrendo infame nos suspiros do ar confidente, ondulando suave por entre existências e lugares.
Tanto por fazer e por lutar, alicerces por suportar na distante corrida languida de corpos e seres. Tanto por conquistar, reclamando a nossa força e o nosso espírito, procurando recuperar tudo o que um dia fomos e queremos novamente voltar a ser. Encontrar a nossa essência, o sabor dos sonhos que agora apodrecem inúteis e abandonados. Mas foram nossos e sempre serão. Defender, conquistar, lutar. Palavras tão poderosas quando sentidas e exercidas, mas de nula utilidade quando apenas vomitadas num simples desabafo, ou num pedaço corrupto de papel.
Todas as respostas têm um útero formador, um veículo transmissor que as molda, criando o núcleo vivo e imperecível de uma nova realidade ávida por uma posse que a proteja, a sua integridade e o seu amor. Estaremos preparados para as respostas que a nós se depararam? Estaremos preparados para um novo mundo, brilhante realidade que num novo dia clama apaixonadamente por atenção? Odiamos o novo, o diferente, tudo aquilo que fura com a estabilidade, normalidade vigente envenenando os nossos corações. O puro e corajoso acto de arriscar encontra-se engolido por páginas poeirentas de dicionários e de álbuns de fotografia. Quem não arrisca não petisca, afirma o velho ditado. Talvez não queiramos petiscar, ou estamos demasiado ocupados em petiscar o gasto e sofrível, doloroso e disforme. Existência banal, sem rasgos de divindade, luta e desejo. Sem pinceladas de amor e de irmandade, apenas tolhida pela necessidade bárbara de obtenção de rendimentos físicos e materiais que apodrecem rapidamente no colo e na gula do Homem. Ao fim ao cabo estamos todos tolhidos pela atmosfera vil e podre da doença que tudo desmembra e destrói, porque somos todos simples e simpáticos ignorantes, temendo mais que tudo a morte, mas caminhando rapidamente para o seu leito. Para nunca mais regressar.

Publicado por Ray_Manzarek em agosto 26, 2003 09:48 PM
Comentários

Sabe, as mudanças nos assustam porque podem ser positivas ou não; então preferimos manter a segurança e o conforto na continuidade das coisas, ainda que isso nos custe a alegria futura, o vigor da vida que deixou de pulsar nas veias. Nossa vida é o produto de nossas escolhas, e partir rumo ao desconhecido pode custar muito... por outro lado pode ser nossa única salvação.
Um abraço!
Flávia

Afixado por: Prettybaby em setembro 13, 2003 07:07 PM
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agosto 26, 2003
O que fazer?

O que fazer quando todos os sonhos se despedaçam numa gritante explosão existencial, e tudo o que resta se encontra fragmentado no chão sujo e velho de memórias? O que fazer quando tudo o que nos resta está humildemente prostrado no chão, paciente tímido de uma realidade que ultrapassa a força e o desejo oculto, uma realidade que se encontra tatuada e moldada em cada rosto que nos cerca, libertando a mesma mágoa, semelhante dor e infortúnio.
O que fazer quando o amor que guia uma vida adoece subitamente, tolhido por uma desesperada crueldade, sinónimo de uma desistência súbita e trágica, derramando nas ruelas e calçadas do espírito o cruel odor de sangue fresco e mórbido, escorrendo infame nos suspiros do ar confidente, ondulando suave por entre existências e lugares.
Tanto por fazer e por lutar, alicerces por suportar na distante corrida languida de corpos e seres. Tanto por conquistar, reclamando a nossa força e o nosso espírito, procurando recuperar tudo o que um dia fomos e queremos novamente voltar a ser. Encontrar a nossa essência, o sabor dos sonhos que agora apodrecem inúteis e abandonados. Mas foram nossos e sempre serão. Defender, conquistar, lutar. Palavras tão poderosas quando sentidas e exercidas, mas de nula utilidade quando apenas vomitadas num simples desabafo, ou num pedaço corrupto de papel.
Todas as respostas têm um útero formador, um veículo transmissor que as molda, criando o núcleo vivo e imperecível de uma nova realidade ávida por uma posse que a proteja, a sua integridade e o seu amor. Estaremos preparados para as respostas que a nós se depararam? Estaremos preparados para um novo mundo, brilhante realidade que num novo dia clama apaixonadamente por atenção? Odiamos o novo, o diferente, tudo aquilo que fura com a estabilidade, normalidade vigente envenenando os nossos corações. O puro e corajoso acto de arriscar encontra-se engolido por páginas poeirentas de dicionários e de álbuns de fotografia. Quem não arrisca não petisca, afirma o velho ditado. Talvez não queiramos petiscar, ou estamos demasiado ocupados em petiscar o gasto e sofrível, doloroso e disforme. Existência banal, sem rasgos de divindade, luta e desejo. Sem pinceladas de amor e de irmandade, apenas tolhida pela necessidade bárbara de obtenção de rendimentos físicos e materiais que apodrecem rapidamente no colo e na gula do Homem. Ao fim ao cabo estamos todos tolhidos pela atmosfera vil e podre da doença que tudo desmembra e destrói, porque somos todos simples e simpáticos ignorantes, temendo mais que tudo a morte, mas caminhando rapidamente para o seu leito. Para nunca mais regressar.

posted by Ray_Manzarek at 09:48 PM
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Sabe, as mudanças nos assustam porque podem ser positivas ou não; então preferimos manter a segurança e o conforto na continuidade das coisas, ainda que isso nos custe a alegria futura, o vigor da vida que deixou de pulsar nas veias. Nossa vida é o produto de nossas escolhas, e partir rumo ao desconhecido pode custar muito... por outro lado pode ser nossa única salvação.
Um abraço!
Flávia

Posted by: Prettybaby on setembro 13, 2003 07:07 PM
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